A ex-atriz e empresária Susana Werner gerou polêmica ao anunciar nas redes sociais, na quinta-feira, 18, o início de um tratamento para emagrecer com retatrutida. No vídeo, ela exibe o abdômen e recebe uma injeção do medicamento, considerado uma versão mais avançada das canetas para obesidade, como Mounjaro e Wegovy. No entanto, a substância ainda não está disponível para venda em nenhum lugar do mundo, nem mesmo nos Estados Unidos, onde Susana afirma estar realizando o tratamento.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é um triagonista, ou seja, atua sobre três receptores hormonais diferentes envolvidos no controle do apetite, metabolismo e glicose. Diferentemente da semaglutida (Ozempic, Wegovy) e da tirzepatida (Mounjaro), ela age simultaneamente em três frentes, o que tem despertado grande interesse. Atualmente, a substância está na fase 3 dos estudos clínicos, a etapa final de testes em humanos antes da submissão às agências reguladoras, como a Anvisa, no Brasil, e o FDA, nos Estados Unidos. Isso significa que qualquer produto comercializado como retatrutida não corresponde à versão original do medicamento e não passou pelo processo regulatório, não havendo garantias de segurança, eficácia e qualidade.
Riscos do uso de retatrutida ilegal
O endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), alerta para os perigos. A primeira preocupação envolve o conteúdo dessas formulações, muitas vezes adquiridas de fornecedores sem regulação adequada, localizados na Índia, China e Paraguai. Mesmo que a substância presente seja a retatrutida, não há garantia de que tenha a mesma estrutura molecular da versão estudada. “A retatrutida é um triagonista, atua sobre três receptores diferentes. Para funcionar corretamente, a molécula precisa ter uma configuração específica. Uma versão alternativa pode não apresentar essa mesma estrutura e, consequentemente, não produzir os efeitos esperados”, explica.
Outro problema é a dosagem. Produtos não regulamentados podem conter quantidades inferiores ou superiores às investigadas pelos estudos. Subdoses comprometem os resultados, enquanto doses excessivas aumentam o risco de efeitos adversos, como náuseas intensas, vômitos, dor abdominal e até necessidade de internação. A pureza do produto também é questionável. Análises de versões irregulares de medicamentos semelhantes, como a tirzepatida, já identificaram níveis elevados de contaminantes, que podem levar à formação de compostos desconhecidos e desencadear reações alérgicas sistêmicas graves, com febre, edema generalizado e alterações cutâneas. Reações no local da aplicação, como inchaço, vermelhidão e inflamação, também são possíveis.
Macedo menciona a síndrome de Stevens-Johnson, uma reação alérgica rara, grave e potencialmente fatal à pele e mucosas, geralmente desencadeada por medicamentos. “Já vimos isso acontecer com outras moléculas. Com a retatrutida, especificamente, não conheço relatos, mas tudo é possível”, diz. O ponto é que, como não é possível garantir o que existe dentro desses produtos, também não é possível prever com precisão os riscos envolvidos. Medicamentos dessa classe são estudados e indicados para condições específicas, como obesidade e diabetes tipo 2. Quando usados por pessoas sem essas condições, especialmente em formulações não aprovadas, os riscos se ampliam.
Por que a retatrutida desperta interesse?
Apesar das preocupações, a retatrutida tem chamado atenção pelos resultados observados em pesquisas. Dados apresentados no início de junho pela Eli Lilly, farmacêutica responsável pelo desenvolvimento da molécula, mostraram que participantes que receberam a dose máxima de 12 mg perderam, em média, 32 kg ao longo de 80 semanas de tratamento, o equivalente a 28,3% do peso corporal. Além disso, a maioria dos pacientes apresentou melhora em indicadores relacionados ao diabetes tipo 2.
Em nota enviada ao Estadão, a Eli Lilly alertou para a circulação de produtos ilegais vendidos como retatrutida. “Esses produtos não são purificados ao nível farmacêutico e, frequentemente, provêm de fornecedores estrangeiros ilícitos e não regulados. Os doentes merecem medicamentos seguros, eficazes e clinicamente testados, e não produtos nocivos”, escreveu a farmacêutica. A Anvisa declarou que não autoriza a importação de retatrutida de nenhum lugar do mundo. “Mesmo em outros países, a venda de medicamentos que alegam ter retatrutida é ilegal e oferece sérios riscos aos usuários”, disse a agência.



