Ibovespa cai 1,89% com tarifas dos EUA e incertezas geopolíticas
Ibovespa cai 1,89% com tarifas dos EUA e geopolítica

O Ibovespa opera em baixa nesta quarta-feira, 3 de junho, véspera de feriado no Brasil, pressionado por uma combinação de fatores externos e domésticos. A alta do petróleo, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, não é suficiente para sustentar o mercado acionário brasileiro, que enfrenta incertezas sobre as negociações entre Washington e Irã e a proposta dos Estados Unidos de impor tarifas adicionais a diversos parceiros comerciais, incluindo o Brasil.

Desempenho do Ibovespa

Às 12h20 (horário de Brasília), o principal índice da bolsa brasileira registrava queda de 1,89%, aos 170.912 pontos, após atingir a mínima de 170.998,82 pontos (-1,84%). A abertura foi estável, com máxima em 174.192,19 pontos. O mercado também avalia dados econômicos importantes, como a produção industrial brasileira de abril, os números de emprego do ADP nos Estados Unidos e a atividade de serviços norte-americana, além do Livro Bege do Federal Reserve (Fed).

Produção industrial acima do esperado

Divulgada nesta quarta-feira, a produção industrial brasileira subiu 0,7% em abril na comparação com março, superando a mediana das expectativas do mercado, que era de 0,5%. Na comparação anual, o crescimento foi de 2,7%, também acima da mediana projetada de 1,9%. Apesar do dado positivo, os números reforçam a cautela em relação à condução da política monetária pelo Banco Central, a poucos dias da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

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Expectativas para a Selic

Na véspera, o BTG Pactual elevou sua projeção para a taxa de juros terminal, de 13,0% para 14,25% em 2026 e de 10,50% para 12,50% em 2027. O banco prevê que o último corte de 0,25 ponto percentual na Selic ocorrerá em junho. Hoje, XP Investimentos e Barclays também revisaram suas expectativas na mesma direção, indicando espaço cada vez menor para quedas adicionais.

Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, destaca que a escalada das tensões no Oriente Médio afasta a perspectiva de uma resolução rápida, elevando o preço do barril de petróleo e a cotação do dólar americano frente a todas as moedas. A alta do dólar impactou de forma estrutural o iene, que atingiu níveis críticos mesmo após intervenção do Banco Central do Japão.

“Conforme perdemos o vislumbre de um ponto final ao bloqueio naval em Ormuz, os juros futuros seguem em forte ganho de amplitude, anulando as expectativas de cortes na Selic”, avalia Praça. O mercado já precifica uma taxa de 14% para o final deste ano, com espaço para apenas mais dois cortes de juros, o que levaria a uma pausa no ciclo de afrouxamento monetário do Banco Central.

Tarifas dos EUA e repercussão

O mercado doméstico também repercute a proposta de um novo tarifaço de até 12,5% dos Estados Unidos contra o Brasil, a União Europeia e outros 58 países, sob a alegação de falha no combate à importação de bens produzidos com trabalho forçado. Se aplicada, essa tarifa se somaria aos 25% já anunciados pelo governo americano na terça-feira, após investigação sobre práticas comerciais brasileiras. A União Europeia classificou as novas tarifas como “injustificadas”.

Segundo o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR), a medida busca evitar desvantagem competitiva para o comércio americano e tem como alvo principal as exportações da China. Alvaro Maia, executivo da Stonex, afirma que, apesar de a queda da curva de juros doméstica ser um suporte estrutural para os ativos locais, a potencial implementação de tarifas contra o Brasil introduz um novo elemento de risco estrutural, ainda não precificado, especialmente relevante para setores exportadores.

Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos da Pilar Capital, avalia que, mesmo que a tarifa final seja limitada ou negociada, o custo reputacional pode permanecer, afetando a percepção de risco sobre o país e as empresas exportadoras. “O impacto inflacionário direto é limitado, mas um real mais fraco pressiona insumos e combustíveis, e a pauta eleitoral tende a contaminar o tema. O cenário-base segue setorial e administrável, mas a probabilidade de reprecificação subiu”, diz.

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Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, ressalta que a resposta deve ser não apenas diplomática, mas também institucional. “O país precisa demonstrar capacidade de fiscalização, transparência e segurança regulatória, porque mercados internacionais estão cada vez menos dispostos a separar preço de origem, compliance e risco socioambiental. Em um ambiente global mais protecionista, a confiança passa a ser um ativo econômico”, afirma.

Reação do governo

Em reunião ministerial na manhã desta quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que o Brasil “não pode aceitar o tratamento que os EUA deram ao Brasil nesta semana”.

Cautela pré-feriado

A cautela típica de véspera de feriado de Corpus Christi também influencia os negócios no país. Na terça-feira, o Ibovespa fechou em alta de 1,16%, aos 174.197 pontos. Nesta manhã, o petróleo avança cerca de 2%, com o Brent se aproximando de US$ 100 o barril, enquanto o minério de ferro fechou em queda de 0,57% em Dalian.

Com informações de Estadão Conteúdo e Reuters.