Estrangeiros retiram R$ 14,91 bilhões da B3 em maio, maior saída desde 2022
Estrangeiros retiram R$ 14,91 bilhões da B3 em maio

No mês de maio, os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,91 bilhões da B3, confirmando um movimento que já era antecipado. De acordo com levantamento da Elos Ayta, com base em dados da B3, esse valor representa a maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022, superando o recorde anterior de R$ 13,21 bilhões registrado em agosto de 2023.

O fenômeno conhecido como "sell in may and go away" reflete, segundo especialistas, uma postura de aversão ao risco global em primeira análise. No entanto, também revela uma dinâmica que se instalou no início do ano e é explicada por outros fatores.

Movimento tático

O fluxo estrangeiro para ativos brasileiros, que surpreendeu no começo do ano, ocorreu em um contexto no qual os mercados emergentes foram vistos como atraentes, em detrimento dos ativos nos Estados Unidos. Para analistas do BB Investimentos, o movimento observado teve caráter predominantemente tático, mais do que uma realocação estrutural no mercado brasileiro.

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Além disso, na análise de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, a alta das bolsas americanas, que bateram recordes inúmeras vezes neste ano, contribuiu para que investidores buscassem países com fundamentos e valuations mais atrativos.

O dólar globalmente mais fraco e as maiores perspectivas de cortes de juros pelo Federal Reserve também garantiram ao Brasil um lugar privilegiado entre os investidores estrangeiros nos primeiros meses de 2026. O movimento se deu dentro de um contexto maior, segundo o analista, com fluxo de investidor internacional maior para economias emergentes.

"Soma-se a isso a sustentação dos preços das commodities; moedas de elevado carry (como o real, o peso mexicano e a lira turca); e o fato de que muitos países que compõem os emergentes estão muito bem integrados nas cadeias de produção de semicondutores — como Coreia do Sul, China e Taiwan", diz Shahini.

Mas, depois de meses de entradas consistentes, o que fez com que o estrangeiro tirasse o pé do acelerador e parasse de optar pela bolsa brasileira com maior força? Alguns motivos explicam a reversão do fluxo.

1- Guerra entre Irã e EUA

O conflito entre o Irã e os Estados Unidos, iniciado em 28 de fevereiro, trouxe repercussões para o mercado brasileiro de formas diversas. Se, por um lado, o aumento do preço do petróleo foi responsável pela valorização de papéis de petroleiras como a Petrobras (PETR3; PETR4), que acumula alta de quase 38% só em 2026, o aumento de incertezas também impactou negativamente a B3.

"O cenário macroeconômico está bem incerto: o mundo se encontra com uma inflação maior e estoques de petróleo cada vez menores. Isso tem levado a um movimento de maior aversão ao risco no geral, o que acaba penalizando mais os mercados emergentes (por serem mais voláteis)", afirma Shahini.

2- Petróleo em alta, inflação também

Com o aumento dos preços da commodity e a redução dos estoques, o ganho para petroleiras é inegável. No entanto, a potencial escassez do petróleo, neste momento, pode representar inflação global mais elevada. Em maio, a perspectiva de maior elevação de juros nos EUA para conter a inflação fez com que os rendimentos dos títulos públicos, os Treasuries Yields, batessem os maiores patamares desde 2007.

"Com os yields das Treasuries em patamares atrativos e a inflação no atacado global pressionada pelos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, o capital migrou para a segurança dos ativos dos Estados Unidos, deixando o Ibovespa temporariamente desprovido desse fluxo de liquidez, apesar de as ações brasileiras estarem negociadas a múltiplos relativamente descontados", explica Paula Zogbi, estrategista da Nomad.

3- Volta para tecnologia

Para a XP, a reversão veio justamente como reflexo principalmente da volta do foco para tecnologia e para o "Trade de IA", o que favorece ações dos EUA e emergentes asiáticos como Taiwan e Coreia, mas pesa sobre HALO e sobre teses ligadas a commodities, como Brasil.

A sigla para High Assets, Low Obsolescence caracteriza empresas com muitos ativos físicos e baixo risco que podem ser mais resilientes em relação aos avanços da IA. A ideia "pé no chão" favoreceria antes o mercado brasileiro em um todo, mas com destaque para setores como energia, utilities e materiais.

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Segundo relatório do JPMorgan do meio de maio, depois de um início de ano marcado por forte entrada de capital, a tese pró-Brasil perdeu fôlego na esteira de fatores globais, reprecificação de juros e um novo componente de risco político doméstico.

4- Fatores domésticos

No plano doméstico, os analistas do BB Investimentos afirmam que o componente político tende a ganhar importância nos próximos meses à medida que avançamos no calendário eleitoral, contribuindo para uma maior volatilidade dos mercados e sensibilidade aos desenvolvimentos fiscais e institucionais. Ainda que não seja, neste momento, o principal vetor de mercado, trata-se de um fator adicional de cautela no curto prazo.

Em maio, o JPMorgan destacou o impacto nos mercados de reportagem ligando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-dono do banco Master, Daniel Vorcaro, o que levou a uma forte reação dos mercados. Para os estrategistas, este fato começa a redesenhar probabilidades no mercado preditivo e pode alterar a dinâmica da corrida presidencial. A expectativa do JPMorgan é que Flávio permaneça em segundo lugar nas sondagens, mas com maior distância para Lula em relação às pesquisas divulgadas até agora, que mostravam empate técnico no segundo turno. Uma outra hipótese seria a possibilidade de substituição de candidatura. Flávio pode ser trocado até 15 de agosto, prazo oficial para registro no TSE.