O Centro de Acolhimento ao Autista (Teamarr), em Boa Vista, amanheceu de portas fechadas nesta terça-feira (7), um dia após o esvaziamento da sede. A reportagem do g1 foi impedida de entrar no local, onde carros de construtoras e empresas de refrigeração estavam estacionados e funcionários circulavam.
Esvaziamento após comitiva da Assembleia Legislativa
Na segunda-feira (6), uma comitiva liderada pelo presidente da Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR), Jorge Everton (União Brasil), foi ao Teamarr e anunciou uma mudança na gestão do programa. A medida ocorreu dias após a exoneração dos servidores comissionados da Casa. Eles deixaram o prédio e retiraram materiais usados nos atendimentos.
Ao menos 750 famílias são atendidas gratuitamente pelo Teamarr, o que corresponde a mais de mil crianças e adolescentes beneficiados. Criado em 2022, o programa oferece terapias e acompanhamento contínuo para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Roraima.
Mães protestam contra interrupção dos serviços
Na tarde de segunda-feira, mães de pacientes atendidos pelo Teamarr protestaram em frente à Ale-RR contra as mudanças. Elas afirmam que a interrupção dos serviços compromete o tratamento dos filhos, que já criaram vínculo com os terapeutas.
Durante o protesto, a superintendente de Programas Especiais da Ale-RR, Marília Pinto, organizou uma reunião com o grupo. Pressionada sobre quem deu a ordem para esvaziar o prédio, ela afirmou que a ordem não foi do presidente da Casa, mas não informou de quem foi. "Houve uma determinação que não foi do deputado Jorge Everton de que todos os servidores pegassem os seus objetos pessoais e saíssem. A determinação veio de alguém, mas não foi do deputado", disse Marília, sem identificar o autor.
Prédio trancado e versões contraditórias
Nesta terça-feira, a reportagem encontrou a unidade trancada. Apenas um segurança atendeu a equipe e informou que a entrada não estava autorizada. O g1 telefonou para a superintendente Marília Pinto, mas uma mulher identificada como "Maria", que se apresentou como "diretora", atendeu. Ela afirmou que o programa cumpre um recesso de férias escolares e inicialmente negou a realização de obras no local. Sobre a presença de carros de refrigeração e construtoras, a servidora mudou a versão e confirmou que uma arquiteta realiza adequações nas salas.
O g1 apurou que os servidores exonerados não haviam sido informados sobre a possibilidade de obras durante o recesso. Questionada sobre a proibição da entrada da imprensa em um prédio público, a diretora sugeriu um pedido formal de autorização e encerrou a ligação.
Nota oficial da Ale-RR e da deputada
Em nota, a Ale-RR informou que realiza "levantamento patrimonial" dos bens que estavam à disposição do programa e que, após esse estudo, será possível identificar quais itens pertencem ao patrimônio público e quais são de propriedade particular. A superintendente garantiu o retorno das atividades para 27 de julho e defendeu que a Ale-RR pretende recontratar os servidores exonerados. "Em nenhum momento ele [Jorge Everton] disse que as pessoas que estão aqui não participarão mais. Ele entende a importância e o vínculo que esses servidores têm", declarou.
Responsável pelo Teamarr até então, a deputada Angela Águida Portella (PP) disse em nota ter sido surpreendida com a mudança. A Ale-RR negou que a iniciativa de esvaziar a unidade tenha partido do presidente e atribuiu a determinação à deputada Ângela Portella, que não se manifestou sobre a nota.
Desocupação e retirada de materiais
O g1 acompanhou parte da desocupação do prédio na segunda-feira e registrou quando profissionais esvaziaram salas, armários, retiraram brinquedos, materiais lúdicos e equipamentos utilizados nos atendimentos. Nenhum servidor quis falar. A equipe do presidente chegou por volta das 8h e informou que haveria uma mudança na gestão e que todos os exonerados deveriam se retirar com os materiais. Policiais militares que atuam na Ale-RR acompanharam a ação.
Em nota, a Ale-RR afirmou que houve um planejamento previamente definido e que o programa entra em recesso devido às férias escolares. "Nesse mesmo intervalo, será realizada uma reorganização programada na unidade, com duração aproximada de 20 dias, visando melhorar a estrutura e oferecer ainda mais qualidade no atendimento." A Casa também esclareceu que atualmente o Teamarr atende cerca de 1400 crianças e adolescentes em duas unidades.



