Pedágio indígena na MT-235: cobrança gera debate há quase 30 anos
Pedágio indígena na MT-235 gera debate há quase 30 anos

Quem trafega pela MT-235 no trecho que corta a Terra Indígena Paresi, entre Campo Novo do Parecis e Sapezal, em Mato Grosso, precisa pagar uma taxa de passagem aos indígenas. A cobrança, que existe desde 1997, tem origem em um acordo firmado com a Procuradoria Federal durante a pavimentação da rodovia. Conhecida popularmente como “pedágio indígena”, a prática é definida pelos indígenas como um direito de passagem e foi estabelecida há quase 30 anos como parte das medidas negociadas para permitir a pavimentação da estrada dentro do território indígena.

Vídeo reacende polêmica

Um vídeo que voltou a circular nas redes sociais reacendeu a dúvida entre caminhoneiros e motoristas que trafegam pelo interior de Mato Grosso. Nas imagens, o autor questiona a cobrança feita no local e sugere que ela seria irregular. Apesar disso, a cobrança é legal e tem respaldo em acordos antigos.

Caminhoneiros conhecem bem a cobrança

Quem utiliza a rota com frequência já está acostumado a parar no posto de arrecadação. O caminhoneiro Bartolomeu, em contato com o Estradão por mensagem, afirma que caminhões pagam atualmente R$ 50 para atravessar o trecho. Ele confirma ainda que há dois pontos de cobrança no trajeto, mas que o motorista paga apenas uma vez por viagem. “Lá cobra R$ 50 para passar um caminhão. Chamam de trem. E o rodotrem também é R$ 50”, relata. Segundo ele, o fluxo de veículos é intenso, principalmente por causa do transporte de grãos produzido na região. A MT-235 é considerada uma importante rota logística para o agronegócio mato-grossense e serve como alternativa para motoristas que seguem em direção a Sapezal e outras áreas produtoras.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Como surgiu a cobrança?

De acordo com dissertação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) sobre o povo Paresi, a cobrança tem origem em 1997, quando foi concedida com o consentimento da Procuradoria Federal. A autorização surgiu em resposta à forte pressão para arrendamento das terras indígenas e a cobrança pelo direito de passagem foi estabelecida como alternativa de renda para as comunidades. O tema ganhou novo contorno durante o processo de pavimentação da MT-235, quando a autorização para asfaltar o trecho foi condicionada à adoção de medidas compensatórias voltadas às comunidades afetadas. Entre elas estava a manutenção da cobrança. A Funai, que acompanha a prática desde então, informou na época que o governo de Mato Grosso também havia assumido compromissos relacionados à implantação de infraestrutura e melhorias no local.

Por que a rota é tão utilizada?

O trecho da MT-235 funciona como um atalho para quem se desloca pela região. Sem utilizar a estrada que corta a Terra Indígena Paresi, motoristas teriam de percorrer cerca de 250 quilômetros adicionais para chegar a Sapezal. A rota também integra corredores utilizados para o escoamento da produção agrícola do oeste mato-grossense, incluindo cargas destinadas ao estado de Rondônia e à hidrovia do Rio Madeira. Por causa dessa importância logística, milhares de veículos utilizam o trecho todos os anos.

Para onde vai o dinheiro?

Os dois pontos de cobrança na rodovia são administrados por duas associações Paresi — a Wáimare e a Halitinã. Segundo lideranças indígenas ouvidas pelo portal O Livre em 2017, os recursos arrecadados são destinados às comunidades e distribuídos mensalmente entre as famílias das aldeias. De acordo com representantes indígenas, o dinheiro é aplicado em áreas como saúde, educação, agricultura e melhorias nas aldeias. À época, a Funai estimava que cerca de 1,7 mil indígenas eram beneficiados pelos recursos obtidos com a arrecadação.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Por que o tema continua gerando debate?

Apesar de existir há décadas, a cobrança ainda causa estranhamento entre muitos motoristas por ocorrer em uma rodovia estadual aberta à circulação pública. Vídeos publicados nas redes sociais costumam questionar a legalidade da prática e frequentemente se referem ao local como um “pedágio indígena”. No entanto, documentos e relatos sobre a origem da cobrança indicam que ela está ligada aos acordos firmados para permitir a pavimentação da estrada dentro da Terra Indígena Paresi. A discussão voltou à tona após a repercussão do vídeo recente, mas o tema acompanha a história da MT-235 há mais de duas décadas. Mais do que uma simples tarifa rodoviária, a cobrança está ligada à convivência entre uma das principais rotas de escoamento da produção agrícola de Mato Grosso e os direitos das comunidades indígenas que vivem na região. O Estradão entrou em contato com representantes do povo Paresi, que confirmaram a existência da cobrança, mas não concederam entrevista nem detalharam o funcionamento atual da arrecadação. A reportagem será atualizada quando houver retorno.