Prefeito de SP nega acesso a contratações terceirizadas de ONG ligada ao PCC
Nunes nega acesso a contratações de ONG ligada ao PCC

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou nesta terça-feira (30) que a Prefeitura contrata organizações para prestar serviços municipais, mas não tem acesso às contratações terceirizadas dessas entidades. A declaração ocorre após vir à tona que Alex Leandro Bispo dos Santos, apontado pelo Ministério Público de São Paulo como integrante do PCC, está ligado a uma empresa associada ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG que possui contrato com a gestão municipal para instalar pontos de wi-fi gratuito na periferia da capital.

Vínculo com o PCC e contrato milionário

Segundo as investigações, Santos é sócio de uma empresa ligada à produtora do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A empresa funciona no mesmo endereço do Instituto Conhecer Brasil, organização comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama. Karina é alvo de uma operação da Polícia Civil que apura suspeitas de irregularidades em um contrato de R$ 157 milhões firmado pela Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi gratuito em regiões periféricas da capital, segundo cálculos da polícia.

Até dezembro de 2025, Alex Leandro Bispo dos Santos era sócio único da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, uma das três empresas contratadas pelo ICB para a instalação dos pontos de wi-fi na periferia da cidade. O contrato inicial entre a ONG de Karina Gama e a empresa era de R$ 12 milhões. A empresa foi responsável por instalar mais de 900 pontos de internet nas favelas da cidade, recebendo mais de R$ 3,8 milhões, segundo as notas apresentadas para a Prefeitura de São Paulo pela entidade até o final de dezembro de 2025.

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Defesa de Nunes e histórico criminal

“Meu contrato é com a entidade que está prestando o serviço. Quem a entidade contrata a gente não tem nem acesso a isso. Agora obviamente, se tem alguém envolvido ligado ao PCC, tem que ser julgado pela justiça e condenado. Eu não sou juiz, sou prefeito”, afirmou Nunes. Atualmente, Santos está preso preventivamente sob acusação de feminicídio. Ele é suspeito de matar a companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos, que morreu após cair do 10º andar de um prédio na Vila Andrade, na Zona Sul de São Paulo, em novembro de 2025.

Segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Presidente Prudente, Santos tem uma extensa ficha criminal e já cumpriu pena em duas unidades prisionais paulistas onde estão detidos integrantes da cúpula do PCC: os presídios de Mirandópolis e Presidente Venceslau, no Oeste do estado.

Contrato sob suspeita e mudança societária

O contrato entre o ICB e a Secretaria de Inovação e Tecnologia da gestão Ricardo Nunes foi assinado em junho de 2024. Na época, a entidade de Karina da Gama não tinha nenhuma experiência na instalação desse tipo de tecnologia na cidade e terceirizou a instalação e gestão dos pontos para várias empresas, como Ultra IP Tecnologia e Serviços LTDA, Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. e Complexsys Soluções Integradas LTDA.

Em maio, o g1 já tinha identificado que o primeiro contrato assinado entre a ONG de Karina com a empresa Favela Conectada era de R$ 12 milhões, logo na sequência dela ter sido contratada pela gestão Nunes. No primeiro contrato assinado com a ONG, em 2024, o nome do empresário como representante da companhia aparece apenas como Alex, sem sobrenome, CPF ou identidade. Após a denúncia, em janeiro, a empresa Favela Conectada deixou de ter Alex Leandro como sócio único e passou para o controle de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, segundo o registro da Junta Comercial de SP (Jucesp). Tatiane mora no mesmo endereço de Alex, na Rua Ernesto Paglia, na região do Butantã, Zona Oeste de São Paulo. A empresa mudou de nome para Urban Connect Serviços e Tecnologia LTDA.

Defesa do empresário e posicionamentos

O criminalista Eugênio Malavasi, advogado de Alex Leandro Bispo dos Santos, nega que o cliente seja integrante do PCC. "Evidência não é prova. Ele nega, peremptoriamente, integrar facção criminosa", afirmou. Sobre a acusação de feminicídio, o advogado declarou que "o Alex não jogou sua companheira como quer crer o Ministério Público".

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Em depoimento à polícia, Alex admitiu ter agredido a mulher, afirmando que "perdeu a cabeça" e deu "uns tapas" na esposa, mas negou tê-la matado. Segundo sua versão, Maria Katiane foi até a sacada e se jogou.

Nota da Prefeitura de São Paulo

A Prefeitura de São Paulo informou que, desde dezembro de 2025, a empresa mencionada não atua como parceira do ICB no âmbito do Programa Wifi Livre. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) ressaltou que não há e nunca houve qualquer vínculo contratual direto com a empresa Favela Conectada ou seu administrador. A relação jurídica do Município se dá somente com o ICB e, de acordo com a Lei nº 13.019/2014, a escolha e gestão dos fornecedores e terceirizados são de responsabilidade unicamente da entidade parceira. A nota também destacou que o prefeito Ricardo Nunes assinou, em dezembro de 2024, dois decretos para romper contratos com empresas de ônibus investigadas por ligação com grupos criminosos.

Nota do Instituto Conhecer Brasil

O Instituto Conhecer Brasil afirmou que a contratação da empresa Favela Conectada foi realizada com base em critérios técnicos, operacionais e documentais. À época, seu representante já desenvolvia atividades regulares de conectividade na comunidade de Paraisópolis, por meio da prestação de serviços para a Surf Telecom. O Instituto disse que não identificou qualquer impedimento legal que inviabilizasse a contratação. A partir do momento em que tomou conhecimento da investigação relacionada ao crime de feminicídio envolvendo o administrador da empresa, adotou imediatamente as medidas cabíveis, promovendo a rescisão da relação contratual em dezembro de 2025.