Mãe de juíza morta após coleta de óvulos relata pressa do médico com atestado de óbito
Mãe de juíza relata pressa de médico com atestado de óbito

A mãe da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, prestou depoimento à Polícia Civil e afirmou que o médico Maurício Costa Nunes Ligabô Júnior, responsável pelo procedimento de coleta de óvulos, já tinha o atestado de óbito pronto e se ofereceu para ajudar com os trâmites funerários quando comunicou a morte da magistrada no Hospital e Maternidade Mogi Mater.

O depoimento da mãe

Marilza Francisco contou que, no dia 5 de maio, por volta das 20h, foi recebida por Ligabô no hospital. O médico usava roupas de centro cirúrgico e informou que aguardava a chegada de outro profissional para realizar uma cirurgia em Mariana. A mãe perguntou sobre a necessidade de hemodiálise e recebeu a resposta de que o nefrologista havia dispensado o tratamento. Ela também questionou a duração da cirurgia, e Ligabô informou que o procedimento levaria cerca de duas horas, após o que ela poderia visitar a filha no quarto.

Marilza voltou ao hospital às 21h45. Às 22h15, foi atendida novamente pelo médico na recepção. Segundo ela, Ligabô afirmou que retirou um dos ovários, uma trompa e parte do outro ovário, que estaria 'tomado de cistos'. A mãe perguntou se poderia ver a filha, mas foi orientada a retornar no dia seguinte. Antes de sair, questionou sobre um problema renal identificado em exames, e o médico respondeu: 'vamos por partes, isso a gente vê depois'.

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No dia 6 de maio, por volta das 9h, Marilza recebeu uma ligação pedindo que fosse ao hospital. Ao chegar, foi recebida por Ligabô e pela médica intensivista Nadja Roberta Melo Cury. Ela foi informada de que Mariana sofreu uma parada cardiorrespiratória às 4h, foi reanimada, mas teve uma nova parada às 6h e morreu.

Oferecimento de ajuda

No depoimento, Marilza afirmou que Ligabô disse: 'já cuidei do atestado de óbito e não esperei o tempo certo, para adiantar as coisas'. Segundo ela, após mostrar o corpo da juíza, o médico a levou para outra sala, colocou a mão sobre a perna dela e disse: 'o que você precisar eu te ajudo, porque eu conheço muita gente em Mogi. Anota meu telefone particular. Eu posso agilizar tudo para você, pois conheço pessoas da funerária'.

Marilza percebeu pressa por parte do médico e do hospital para que o corpo fosse retirado. A intenção inicial da família era cremar o corpo, mas o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), onde a magistrada atuava, orientou a realização de uma autópsia. 'Depois que o tribunal pediu a autópsia e autorizei, o hospital ficou enrolando para liberar o documento e dando desculpa que não precisava porque sabiam do que ela tinha morrido. Chamaram o Maurício e a Nadja para assinar o laudo. Quando soube da autópsia, ele nem olhou na minha cara', contou Marilza.

A mãe também questionou o destino dos órgãos retirados durante a cirurgia. 'Eles fizeram autópsia, mas os órgãos que tiraram o hospital não mandou junto com o corpo. Não sei para onde os órgãos foram levados.' Ela busca respostas sobre a morte da filha e quer que eventuais responsabilidades sejam apuradas. 'Se houve negligência e falta de socorro eu quero saber.'

O caso

A juíza Mariana Francisco Ferreira morreu em 6 de maio após sofrer uma hemorragia causada por complicações após um procedimento de coleta de óvulos para fertilização in vitro em uma clínica de reprodução assistida em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Segundo Marilza, a filha realizou a coleta e recebeu alta, mas começou a sentir fortes dores cerca de uma hora depois. 'Ela começou a uivar de dor, muita dor. Ela gritava. Foi um desespero, eu vi minha filha gritar, minha filha sofreu. Minha filha sofreu muito', lamentou.

A mãe ligou para a clínica e foi orientada a voltar imediatamente. Ao chegar, Mariana apresentava sangramento. O médico tentou conter a hemorragia ainda na clínica. Segundo a mãe, os médicos informaram que uma artéria no colo do útero havia se rompido durante o procedimento. Mariana perdeu cerca de dois litros de sangue, informação repassada pela equipe médica. Ela foi levada para a Maternidade Mogi Mater no carro da mãe, acompanhada apenas por uma funcionária da clínica. 'Eles não ofereceram ambulância. Eu levei minha filha no meu carro', afirmou.

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A Polícia Civil investiga Ligabô por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. O caso foi registrado como morte suspeita e morte acidental. A investigação busca esclarecer se a morte ocorreu por complicações médicas inerentes ao procedimento ou por eventual falha no atendimento.

O que diz a defesa de Maurício Ligabô

Em nota, a defesa do médico afirmou que é equivocada a informação de que o atestado de óbito já estava pronto. Segundo a defesa, o documento foi elaborado por uma junta médica formada por Ligabô, a doutora Nadja Roberta Melo Cury e uma advogada do hospital, como se faz em todo atestado de óbito. A defesa destacou que neste momento tudo é especulativo e que é preciso cautela para evitar que a verdadeira causa da morte não seja apurada em razão de especulações superficiais. O Dr. Maurício prestará ainda muitas informações em seu interrogatório.

O que diz o Hospital Mogi Mater

O Hospital e Maternidade Mogi-Mater informou que todas as informações solicitadas pelas autoridades competentes já foram prestadas e que continua à disposição para novos esclarecimentos. A instituição reafirmou compromisso com a transparência e a colaboração com os órgãos responsáveis, mas não comentará dados clínicos ou pessoais da paciente em respeito à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao sigilo médico.