Uma dose de cerveja, uma taça de vinho ou um gole de destilado. Por muito tempo, acreditou-se que o consumo moderado de álcool poderia trazer benefícios à saúde, especialmente para o coração. No entanto, estudos recentes e a Organização Mundial da Saúde (OMS) são categóricos: não existe nível seguro para o consumo de álcool. Qualquer quantidade, por menor que seja, já representa um risco à saúde.
O que diz a ciência
Uma pesquisa publicada no periódico The Lancet analisou dados de 195 países entre 1990 e 2016 e concluiu que o álcool é responsável por 2,8 milhões de mortes por ano em todo o mundo. O estudo aponta que o consumo de álcool está associado a mais de 200 doenças, incluindo câncer, doenças cardiovasculares, cirrose hepática e transtornos mentais.
De acordo com a OMS, o álcool é uma substância psicoativa que pode causar dependência e é classificada como cancerígena do Grupo 1, mesma categoria do tabaco e do amianto. Ou seja, não há dúvidas sobre seu potencial nocivo.
Benefícios do consumo moderado: mito ou verdade?
Por anos, divulgou-se que o consumo moderado de vinho tinto poderia ser benéfico para o coração devido aos antioxidantes, como o resveratrol. No entanto, estudos mais robustos mostram que esses benefícios são mínimos e não superam os riscos. Um estudo de 2018, também no The Lancet, afirmou que o álcool é a principal causa de morte e incapacidade entre pessoas de 15 a 49 anos em todo o mundo.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) recomenda que o consumo de álcool seja evitado ao máximo, especialmente para quem tem histórico de doenças cardíacas. A entidade alerta que o álcool pode aumentar a pressão arterial, elevar os níveis de triglicerídeos e contribuir para a obesidade.
Álcool e câncer: uma relação perigosa
A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classifica o álcool como carcinógeno do Grupo 1, o que significa que há evidências suficientes de que ele causa câncer em humanos. O consumo de álcool está associado a tumores de boca, garganta, esôfago, fígado, cólon e mama. Estima-se que 3,5% de todos os casos de câncer no mundo sejam atribuíveis ao álcool.
Para a mulher, o risco de câncer de mama aumenta em 7% a cada 10 gramas de álcool consumido por dia (equivalente a uma dose padrão). Para os homens, o risco de câncer colorretal cresce 10% com o consumo de duas doses diárias.
Os efeitos no cérebro
O álcool atravessa a barreira hematoencefálica e afeta diretamente o sistema nervoso central. O consumo crônico pode levar à diminuição do volume cerebral, perda de memória, dificuldade de aprendizado e aumento do risco de demência. Um estudo da Universidade de Oxford mostrou que o consumo de mais de 30 gramas de álcool por dia (cerca de três doses) está associado a um risco maior de declínio cognitivo.
Além disso, o álcool interfere no sono: embora ajude a adormecer mais rápido, prejudica a qualidade do sono REM, essencial para a restauração mental e emocional.
Quanto é considerado consumo de risco?
A OMS define como consumo de risco o equivalente a mais de 20 gramas de álcool puro por dia para mulheres e 30 gramas para homens. Uma dose padrão no Brasil contém cerca de 14 gramas de álcool, o que equivale a uma lata de cerveja (350 ml), uma taça de vinho (150 ml) ou uma dose de destilado (50 ml).
No entanto, a entidade ressalta que o ideal é não consumir álcool. Para quem já bebe, a recomendação é reduzir gradualmente e buscar ajuda profissional se houver dificuldade em parar.
Dicas para reduzir o consumo
- Defina metas: estabeleça dias da semana sem álcool e limite o número de doses por ocasião.
- Beba devagar: intercale cada dose com um copo de água ou suco.
- Evite beber de estômago vazio: alimentos retardam a absorção do álcool.
- Escolha bebidas com menor teor alcoólico: prefira cervejas leves ou vinhos com graduação mais baixa.
- Não se sinta pressionado: recusar uma bebida é um direito seu. Se necessário, peça um drink não alcoólico.
Quando buscar ajuda?
Se você sente que não consegue controlar o consumo de álcool, mesmo sabendo dos riscos, pode ser um sinal de dependência. Procure um médico ou psicólogo especializado. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para dependentes de álcool, incluindo grupos de apoio como os Alcoólicos Anônimos.
Lembre-se: a melhor dose é aquela que não é consumida. Sua saúde agradece.



