Recorde de afastamentos por saúde mental no trabalho em Ribeirão Preto
Recorde de afastamentos por saúde mental no trabalho em SP

Recorde de afastamentos por saúde mental no trabalho em Ribeirão Preto

Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que, em 2024, as seis maiores cidades da região de Ribeirão Preto (SP) registraram 5,6 mil afastamentos causados por problemas de saúde mental no trabalho, o maior número da série histórica desde 2012. Os dados, analisados pelo Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT) em parceria com a OIT, apontam que os afastamentos estão associados a doenças como estresse, ansiedade e depressão, atingindo principalmente profissionais como técnicos de enfermagem e auxiliares de escritório em Ribeirão Preto, Franca, Sertãozinho, Barretos, Jaboticabal e Bebedouro.

Principais doenças e profissões afetadas

De acordo com o levantamento, as doenças emocionais mais comuns são episódios depressivos, outros transtornos ansiosos e transtornos fóbico-ansiosos. Transtorno depressivo recorrente, reações ao stress grave, transtornos de adaptação e transtorno afetivo bipolar também aparecem, embora em menor proporção. Marina Sticca, professora associada do departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, explica que a gravidade de um transtorno mental não depende apenas do diagnóstico, mas da intensidade dos sintomas, duração, impacto na vida e resposta ao tratamento. "Para identificar os fatores que levam ao adoecimento mental é necessário realizar uma avaliação sistemática dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho", afirma.

As profissões com maior incidência de afastamentos incluem técnicos de enfermagem, vigilantes, auxiliares de escritório e vendedores em Ribeirão Preto (2.984 afastamentos); operadores de caixa, auxiliares de escritório, vendedores e preparadores de calçados em Franca (1.561); operadores de caixa, vendedores, gerentes de banco e faxineiros em Sertãozinho (337); técnicos de enfermagem, auxiliares de escritório e alimentadores de linha de produção em Barretos (402); gerentes de banco, vendedores e trabalhadores de cultivo de árvores frutíferas em Bebedouro (188); e engenheiros de produção, assistentes administrativos e cozinheiros industriais em Jaboticabal (155).

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Disponibilidade emocional e pressão social como gatilhos

Marina Sticca destaca que a interação contínua com o público é um dos principais gatilhos para o esgotamento, devido à necessidade de disponibilidade emocional. "O elemento comum entre essas ocupações é a necessidade de manter um elevado envolvimento emocional com outras pessoas, frequentemente diante de conflitos, reclamações, sofrimento ou cobranças constantes", diz. Ela ressalta que o risco é maior quando o contato ocorre sob alta pressão e baixo suporte organizacional. João Augusto do Carmo, cientista político e autor do e-book "Nova NR-1 Avançada", acrescenta que a cultura de crítica agressiva nas redes sociais, que migrou para o mundo real, atinge professores, profissionais da saúde e atendentes, gerando desrespeito e pressão adicional. "Pessoas com profissões que lidam com a área social, exposição a episódios ligados à violência ou perigo constante podem desencadear síndrome do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, depressão profunda", afirma.

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Fatores que explicam o recorde de afastamentos

O aumento expressivo dos afastamentos é atribuído a uma combinação de fatores. A professora Marina Greghi Sticca aponta o período pós-pandemia de Covid-19, que intensificou demandas, sobrecarga e insegurança econômica, afetando o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Além disso, em 2023, a atualização da lista de doenças relacionadas ao trabalho incluiu formalmente a Síndrome de Burnout, e mudanças nos sistemas de registro do INSS, como o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP) desde 2007, ampliaram a identificação de doenças ocupacionais mesmo sem a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) pela empresa. "Essa mudança ampliou a identificação dos casos pelos serviços de saúde e facilitou seu enquadramento como doença ocupacional, quando existe nexo com a atividade laboral", explica Sticca. João Augusto também cita a digitalização da vida: "Nos treinamentos e formações que realizo, muitos trabalhadores e trabalhadoras se queixam de que são obrigados a escutar as mensagens de clientes, pelo celular, na velocidade 2.0, acelerando a voz de todas as pessoas. Só assim conseguem dar conta. E isso, claro, é um fator de adoecimento."

Transtorno mental como acidente de trabalho e riscos psicossociais

Na legislação brasileira, o termo "acidente" inclui doenças ocupacionais desenvolvidas pelas condições de trabalho. Marina Sticca explica que o INSS diferencia o benefício previdenciário comum (B31) do acidentário (B91), aplicado quando há nexo entre o adoecimento e fatores como metas excessivas ou jornadas prolongadas. Transtornos psíquicos comprometem funções cognitivas como atenção, memória e concentração, aumentando a probabilidade de erros operacionais e acidentes físicos. "Como consequência, trabalhadores com sofrimento psíquico importante podem apresentar maior probabilidade de cometer erros operacionais ou sofrer acidentes. Nesses casos, o acidente registrado pelo INSS é físico, mas o transtorno mental pode ter contribuído para sua ocorrência ao reduzir a capacidade de atenção e julgamento do trabalhador", afirma.

Os riscos psicossociais originam-se na organização e gestão do trabalho, incluindo falta de autonomia, cobranças humilhantes, assédio, isolamento e falta de clareza na comunicação. A nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho, que entrou em vigor recentemente, exige que as empresas realizem o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo fatores psicossociais de forma contínua. João Augusto defende que o primeiro passo é promover espaços de escuta real: "Não é uma avaliação clínica do trabalhador, de toda a sua vida, mas se o trabalho, em si, pode afetar sua saúde psicológica, emocional, social. (...) É preciso promover um ambiente em que haja apoio, suporte, diálogo, clareza na função, transparência, metas atingíveis, pausas, jornadas sem sobrecarga ou excessivas, ações de reconhecimento à importância de cada pessoa para o dia a dia da empresa."