Pressão para 'ser homem' começa na infância e exige educação antimachista
Pressão para 'ser homem' começa na infância

Crédito: Divulgação / Plan International

A pressão para "ser homem" começa cedo. Desde a infância, meninos aprendem normas de gênero que associam masculinidade à força, ao controle emocional, à agressividade e à negação da vulnerabilidade. Aprendem também estereótipos raciais que impactam especialmente meninos negros, frequentemente associados à violência, à ameaça e à hipersexualização.

Para Ana Nery, especialista em Gênero e Inclusão da Plan Brasil, essas normas não são naturais: são construídas socialmente e transmitidas pela família, pela escola, pelos grupos de pares, pela mídia e por outras instituições. Quando não são questionadas, tendem a naturalizar desigualdades, silenciamentos e diferentes formas de violência.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Na avaliação da especialista, uma educação antimachista e antirracista é fundamental desde as infâncias, especialmente para os meninos, porque amplia possibilidades de expressão, afetividade e cuidado, além de contribuir para relações mais respeitosas e menos desiguais. "Ao aprenderem que masculinidade não precisa estar ligada ao controle, à agressividade ou à negação da vulnerabilidade, adquirem mais abertura emocional, desenvolvem empatia e constroem formas mais saudáveis de se relacionar", afirma.

Nesta primeira entrevista da Série Especial Ser Menino, produzida em parceria com a Plan International Brasil, Ana Nery fala sobre socialização masculina, saúde mental, racismo, exclusão, violência entre pares e os impactos das normas rígidas de masculinidade na vida de crianças e adolescentes.

Ao longo de cinco posts, a série discute temas como os tipos de violência de gênero que acontecem nas escolas e entre crianças e adolescentes; o que precisa mudar; quais são os possíveis caminhos e o que esperar do futuro.

Segundo Ana Nery, não questionar essas normas desde as infâncias significa perpetuar desigualdades e ciclos de violência. "Enfrentar os riscos dessa socialização exige promover masculinidades plurais, cuidadosas e não violentas como parte central de uma agenda de justiça de gênero, racial e direitos humanos", defende.

Confira trechos da entrevista:

Qual é a importância da educação antimachista e também antirracista na criação dos meninos?

Ana Nery: A educação antimachista e antirracista é fundamental na criação desde as infâncias, para todas as pessoas, sobretudo para meninos, porque atua nas raízes das desigualdades e das violências, ajudando a formar sujeitos capazes de construir relações menos desiguais, seguras e respeitosas. Desde a infância, aprendemos sobre as normas de gênero que associam masculinidade à dominação, à força, ao silenciamento das emoções e, muitas vezes, à hierarquização de pessoas, especialmente meninas e mulheres. Também aprendemos sobre os estereótipos de raça, que associam pessoas negras à inferioridade e à agressividade, entre outras questões. Quando essas normas não são questionadas e quando não há um estranhamento sobre esses estereótipos, tendemos a reproduzir determinados comportamento, pensamentos e atitudes como padrão "natural".

Uma educação antimachista possibilita que meninos e homens reflitam criticamente sobre essas expectativas rígidas do que significa "ser menino e homem" e do que é o masculino, ampliando seus cenários de expressão, afetividade e cuidado. Ao aprenderem que masculinidade não precisa estar ligada ao controle, à agressividade ou à negação da vulnerabilidade, adquirem mais abertura emocional, desenvolvem empatia e constroem formas mais saudáveis de se relacionar consigo mesmos e com os outros. Isso é central para a prevenção de violências que começam muitas vezes na naturalização do desrespeito, do controle e da desigualdade nas relações cotidianas.

Quando analisamos a partir de um olhar interseccional é importante reconhecer que existem formas de se tornar menino/homem e que as masculinidades são múltiplas também. Ter uma perspectiva antirracista é intrínseca desse processo, porque as normas de gênero não operam separadamente de outros marcadores sociais, elas se articulam com classe, raça para produzir experiências muito diferentes sobre identidades e com isso sobre acesso a direitos também.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Meninos negros, por exemplo, frequentemente são socializados sob estigmas que os associam à violência, hipersexualização ou à ameaça, o que impacta profundamente sua autoestima, seu direito à infância e sua relação com as instituições e com a sociedade como um todo. Enfrentar o racismo a partir da educação é importante para o reconhecimento do direito desses meninos de existirem para além desses estereótipos e, ao mesmo tempo, para responsabilizar pessoas brancas a reconhecerem privilégios e desigualdades históricas.

Construir uma educação antimachista e antirracista, contribui para que todas as pessoas, inclusive meninos e homens, entendam que desigualdades de gênero e raça não são individuais, mas estruturais e que todas as pessoas têm um papel na transformação dessas realidades. Isso fortalece a noção de corresponsabilidade, justiça e solidariedade e os prepara para atuarem como aliados na promoção dos direitos humanos, especialmente dos direitos de meninas e mulheres em toda sua diversidade.

Na visão da Plan, educar meninos para construírem masculinidades transformadoras e relações menos desiguais significa ampliar suas possibilidades de ser e estar no mundo e investir em prevenção primária da violência, em bem-estar emocional e significa ainda construir comunidades mais seguras e equitativas.

O que vocês mais escutam dos meninos atualmente, nas pesquisas e projetos?

Ana Nery: No geral, comentam sobre a falta de políticas públicas em suas comunidades, a escassez de serviços básicos, como saúde, lazer, quadras de esportes, por exemplo, de ambientes de socialização. Também relatam a dificuldade de conseguir trabalho nessa etapa da juventude e da pouca oferta de cursos preparatórios para o mercado de trabalho. Também comentam sobre a violência nos contextos onde vivem, a segurança pública é um assunto bem debatido e de como os estereótipos de adolescentes e jovens periféricos e negros recai sobre eles.

Em contextos mais específicos, nas oficinas de alguns projetos, por exemplo, muitos adolescentes afirmam que já apostaram em jogos online e veem nisso uma chance de melhora de vida. Em alguns cenários, relatam que querem ganhar dinheiro jogando ou pela internet, sendo influenciadores, compartilhando inclusive que não precisam fazer faculdade para isso. Em algumas oficinas de grupos mistos com meninas e meninos, eles comentam que gostariam de ter mais protagonismo, que se fala muito em direito das meninas, que existem mais temas direcionados para meninas do que para eles e que gostariam de ser mais visibilizados.

Onde e como começa a pressão pelo que se entende por "masculinidade"?

Ana Nery: A pressão sobre o que se entende por "masculinidade" começa muito cedo, nos processos de socialização. Desde as infâncias, meninos aprendem normas de gênero que estabelecem expectativas rígidas sobre como devem sentir, agir e se relacionar, ser fortes, não demonstrar vulnerabilidades, exercer controle, rejeitar o feminino e provar constantemente sua masculinidade diante dos outros. Essas normas não são naturais nem individuais, mas socialmente construídas, transmitidas pela família, pela escola, pelos pares, pela mídia e por outras instituições.

Essa pressão se intensifica especialmente na adolescência, quando o grupo de pares passa a funcionar como um espaço de reconhecimento e validação da masculinidade. Estudos teóricos de gênero mostram que ser reconhecido como "homem" muitas vezes depende da performance pública dessas normas, como a demonstração de virilidade, heterossexualidade compulsória e distanciamento emocional. Meninos que não se adequam a esse modelo, como os que expressam mais sensibilidade, não performam agressividade ou fogem de um referencial de masculinidade hegemônica, tornam-se alvos de punições simbólicas e materiais, como homofobia, ridicularização e exclusão. Dessa forma, a construção da masculinidade é arquitetada tanto pela afirmação de certos comportamentos quanto pela negação e hierarquização de outros.

Essas formas de ser menino/homem que dizem sobre tais masculinidades, que são imbricadas juntamente com raça, classe, território, geração e sexualidade tendem a privilegiar uma masculinidade hegemônica baseada em poder, controle e dominação, que geralmente está relacionada à reprodução de violências de gênero.

Quais são os principais riscos?

Ana Nery: Como riscos dessa socialização pautada em normas de gênero rígidas, estereótipos prejudiciais de gênero, sexualidade e raça, estão principalmente, o aumento das violências quanto ao prejuízo ao bem-estar dos próprios meninos e no processo de socialização com outros grupos, sobretudo meninas e pessoas LGBTQIAPN+. Quando aprendem, desde cedo, que "ser homem" exige dureza, controle emocional, competitividade, negação do cuidado e superioridade sobre o feminino, cria-se um terreno favorável à naturalização da agressividade, da misoginia e da homofobia, além da legitimação do uso da violência como forma de afirmação identitária.

Do ponto de vista da individualidade, essa socialização tende a limitar a expressão emocional, dificultar a busca por ajuda e ampliar a exposição a comportamentos de risco, violência entre pares, sofrimento psíquico e isolamento. Meninos e homens que não correspondem à masculinidade hegemônica, por orientação sexual, raça, classe, sensibilidade ou formas alternativas de ser, podem vir a sofrer punições simbólicas e exclusão, o que reforça hierarquias internas entre masculinidades e aprofunda desigualdades.

Em nível social e relacional, esses padrões sustentam desigualdades de poder de gênero e podem estar associados à reprodução das violências. No entanto, é relevante demarcar que este não é um fenômeno que deve ser visto de forma individual, pois é um problema estrutural produzido e reproduzido pela cultura, amparado por uma lógica de mercado também neoliberal, antiprogressista e escravocrata.

Não questionar essas normas desde as infâncias e juventudes significa perpetuar ciclos desiguais. Por isso, enfrentar os riscos dessa socialização exige promover masculinidades plurais, cuidadosas e não violentas como parte central de uma agenda de justiça de gênero, racial e direitos humanos, sempre com o aporte de políticas públicas amplas e democráticas.