MPA encerra captura de tainha ao atingir 90% da cota anual
MPA encerra captura de tainha ao atingir 90% da cota

O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) determinou o encerramento da captura de tainha (Mugil liza) na modalidade de arrasto de praia para a temporada atual. A suspensão ocorreu imediatamente após os pescadores artesanais alcançarem 90% da cota coletiva autorizada para o ano. A medida visa proteger a espécie durante seu período reprodutivo.

Prazo para descarregamento

Após a publicação do comunicado oficial, as embarcações que já estavam em operação no mar receberam um prazo de apenas 24 horas para realizar o último descarregamento do pescado. O comunicado passou a valer a partir do último domingo (7). O encerramento aos 90% da cota funciona como uma medida de controle pesqueiro para reduzir a pressão sobre os estoques da espécie.

Por que a tainha é tão visada?

A biologia da tainha a torna extremamente vulnerável nesta época do ano. A tainha é um peixe costeiro cuja alimentação varia ao longo do ciclo de vida, incluindo algas, microalgas, detritos e organismos microscópicos. Durante o outono e o inverno, ela deixa os estuários e forma cardumes no mar para se reproduzir. Ao migrar em grandes cardumes, a espécie facilita o trabalho das redes de pesca, que interceptam os peixes próximos à costa. Essa previsibilidade biológica exige um rigoroso sistema de monitoramento governamental.

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Engrenagem do oceano

“A tainha funciona como uma verdadeira engrenagem para o ecossistema costeiro. Como ela se alimenta de microalgas, detritos e matéria orgânica na base da cadeia alimentar, ajuda a transferir energia dentro do ecossistema marinho”, explica Maurício Oliveira, biólogo especializado em vida marinha. Ele completa: “Quando o cardume migra, torna-se um banquete essencial para predadores de topo, como tubarões e aves marinhas. Tirar a tainha do mar de forma descontrolada é o mesmo que tirar a base alimentar de dezenas de outras espécies.”

A interrupção da pesca antes do limite total da cota busca reduzir a pressão sobre os cardumes em período reprodutivo. “Quando você captura um peixe nesse estágio, não está retirando apenas um indivíduo do oceano, mas um grande número de potenciais descendentes. Frear o arrasto agora garante que as fêmeas sobreviventes desovem e garantam o estoque pesqueiro dos próximos anos”, conclui Oliveira.

A ciência por trás da migração

Pesquisadores acompanham de perto esse movimento biológico, que depende inteiramente do clima e da temperatura da água. O estudo “Determinação do estoque e o ciclo de vida da tainha (Mugil liza) no Sul do Brasil”, publicado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), detalha essa relação íntima com as condições oceânicas. “A desova não necessariamente ocorre em um local geográfico determinado e sim quando os cardumes encontram uma condição oceanográfica ideal, principalmente de temperatura superficial do mar”, aponta a pesquisa.

A interrupção antecipada da pesca atua diretamente para proteger esse processo. Ao interromper a captura antes do esgotamento da cota autorizada, o sistema garante que os cardumes sobreviventes encontrem as águas ideais, completem o ciclo reprodutivo e ajudem a manter os estoques pesqueiros das próximas temporadas.

Sobre a tainha

  • Nome popular (nome científico): Tainha-brasileira (Mugil liza)
  • Família: Mugilidae
  • Ordem: Mugiliformes
  • Distribuição: Regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil
  • Alimentação: Algas, microalgas, detritos e organismos microscópicos
  • Reprodução: Migração reprodutiva no outono e inverno, com desova em ambiente marinho costeiro; estuários funcionam como áreas de crescimento dos juvenis
  • Ocorrência: Águas salobras, onde mergulham mais fundo; em água doce, vivem junto à superfície. Maiores indivíduos chegam a 1 metro e 8 kg

A família Mugilidae inclui cerca de 70 espécies e 14 gêneros.

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