Daniel Valentim, homem trans de 27 anos, deu à luz Iara, a primeira bebê gerada por um homem trans na rede pública estadual de saúde da Paraíba. O parto ocorreu no Hospital da Mulher, em João Pessoa, em junho de 2026. Daniel é estudante de agronomia e vive com a esposa, Gisele Castro, professora universitária e veterinária, também pessoa trans, na cidade de Esperança, no Agreste paraibano.
O sonho da parentalidade
O casal já havia tentado engravidar em 2022, mas a interrupção da terapia hormonal de Daniel provocou mudanças físicas que intensificaram a disforia de gênero, levando-os a adiar o plano. “Eu não aguentava mais por conta da disforia. Minha barba tinha caído, já não tinha quase nenhum pelo no rosto. Então, meu peito crescia, meu quadril ficou mais largo, minha cintura mais fina, e isso me incomodava muito. Eu me sentia como antes da transição, não conseguia me olhar no espelho e reconhecer que meu corpo refletia quem eu sou por dentro”, relatou Daniel.
Três anos depois, o casal conseguiu engravidar. Gisele conta que a confirmação veio de forma inesperada: “A gente combinou de fazer o exame de urina juntos. Só que aí teve um dia em que o Daniel, com a ansiedade muito alta, foi à farmácia e fez. Eu estava trabalhando, ele fez, e aí deu positivo. Aí ele pegou, comprou uma fralda, embrulhou a fralda como um presente, colou o exame de urina e fez uma surpresa, falou que tinha um presente para mim. Quando eu abri, era uma fralda e o exame positivo. Então, foi uma emoção muito grande. Eu não esperava que ele fosse engravidar tão cedo”, explicou.
A escolha pelo Hospital da Mulher
Daniel iniciou o pré-natal em Campina Grande, mas o casal buscou uma unidade mais acolhedora para pessoas trans. Descobriram que o Hospital da Mulher, inaugurado há pouco mais de um ano, realizava cirurgias de mastectomia em homens trans, indicando equipe preparada. Uma amiga também recomendou a maternidade. Com apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, Daniel transferiu o pré-natal no oitavo mês de gestação.
“Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou Daniel.
Desafios da gestação
Durante a gravidez, Daniel recebeu diagnóstico de trombose, tornando-a de risco. As mudanças físicas e a pausa na hormonioterapia intensificaram a disforia de gênero. “Eu não conseguia me olhar no espelho porque eu via meu quadril mais largo, a barriga crescendo. Mesmo sendo mastectomizado, o meu peito cresceu, inclusive vou ter que refazer essa cirurgia, porque cresceu bastante, e chegou o momento da situação em que a barriga estava grande e eu não conseguia mais sair de casa pelos olhares”, disse Daniel.
Ele encontrava forças ao lembrar que as mudanças eram para a filha: “Quando eu olhava para o meu corpo, que eu via o quadril alargando, o peito crescendo, eu olhava para a barriga e fazia assim: ‘é pela minha filha, isso vai passar, depois eu resolvo isso’. Então, até me emociono quando eu falo essas coisas”, relatou.
Gisele também interrompeu a terapia hormonal após mais de 15 anos. “O sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter”, explicou.
Preconceito e acolhimento
Daniel enfrentou olhares de estranhamento em público. “Eu me recordo de uma situação em que eu fui comprar pão e a barriga já estava bem aparente. E aí a moça da padaria olhou para mim, olhou para a barriga e fez um olhar bem assim estranho. Isso me atravessou de uma forma grande”, disse.
Para Gisele, compartilhar a história é mostrar que diferentes configurações familiares podem oferecer amor e segurança. “Às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família”, finalizou.



