O renomado neurologista comportamental estadunidense Dr. Bruce Miller, especialista em demência e doenças neurodegenerativas, descreve a demência frontotemporal (DFT) como "talvez a doença mais difícil que conhecemos na neurologia". A DFT é uma condição neurodegenerativa que afeta os lobos frontais e temporais do cérebro, responsáveis pelo comportamento, personalidade e linguagem, causando perda progressiva das funções cerebrais. Assim como outras demências, a DFT não tem cura.
Mudanças comportamentais profundas
Segundo Miller, as alterações comportamentais causadas pela DFT tornam o tratamento ainda mais desafiador, enquanto o paciente se torna menos suscetível à aceitação social. "A personalidade do ser humano muda. Alguém que é amoroso e empático torna-se cruel. Alguém que era muito socialmente adequado e correto torna-se vulgar e grosseiro. Ver isso acontecer com alguém que você ama, que parece não te amar mais, é profundamente difícil", afirma o médico.
O especialista esteve em Porto Alegre a convite do Instituto do Cérebro (InsCer) para participar da Brain Week, que ocorre até domingo (7) na capital gaúcha. Ele relata que a DFT pode gerar problemas além da própria doença, como questões sociais. "Às vezes, acabam na prisão, porque cometem comportamentos antissociais. Às vezes, são tratadas cruelmente por outros porque sua personalidade mudou. Às vezes, o comportamento delas pode levá-las a serem agredidas. Elas sofrem enormemente."
Sofrimento dos cuidadores
A DFT também altera a percepção de sofrimento dos pacientes, explica Miller. "Uma das coisas que aprendi sobre a demência frontotemporal é que ela ataca a parte do cérebro que permite a um ser humano sofrer, então acho que muitas vezes o paciente com DFT está menos ciente de seu problema. O sofrimento fica com os cuidadores, que sofrem enormemente."
Segundo o neurologista, os efeitos colaterais para familiares e cuidadores são ainda maiores do que os causados por outras doenças similares. "Aprendemos que os cuidadores sofrem o dobro de sintomas psiquiátricos do que as pessoas que têm um ente querido com a doença de Alzheimer", diz Miller. "Eles têm maior probabilidade de morrer do que os cuidadores de pacientes com Alzheimer, maior probabilidade de sofrer de uma doença psiquiátrica grave, ou uma doença física grave. A falta de conexão social que acontece com a DFT é devastadora."
Doença ficou conhecida após diagnóstico do ator Bruce Willis
O ator Bruce Willis foi diagnosticado com demência frontotemporal (DFT). A doença foi confirmada pela família em um comunicado publicado nas redes sociais em 2023. Bruce já tinha se aposentado, em 2022, por causa da afasia: um distúrbio de linguagem que afeta a capacidade de comunicação. No entanto, isso era apenas um sintoma da demência frontotemporal.



