PM do Amazonas investiga apreensão de tambores em terreiro
PM do Amazonas investiga apreensão em terreiro

A Polícia Militar do Amazonas (PM-AM) instaurou um inquérito para investigar a ação de policiais que apreenderam tambores durante uma cerimônia religiosa em um terreiro de umbanda na zona norte de Manaus. O incidente, ocorrido no último sábado (27), gerou forte reação de grupos de direitos humanos e lideranças religiosas, que denunciaram o caso como um ato de intolerância religiosa.

O que aconteceu durante a operação?

De acordo com relatos de frequentadores do terreiro, os agentes da PM-AM chegaram ao local por volta das 22h, alegando atender a uma denúncia de perturbação do sossego. Durante a abordagem, os policiais teriam ordenado a interrupção do culto e apreendido os tambores utilizados nos rituais, além de outros objetos sagrados. O terreiro, que funciona há mais de 15 anos no bairro Cidade Nova, nunca havia registrado queixas formais de vizinhos, segundo o pai de santo responsável, que preferiu não se identificar.

A PM-AM, em nota oficial, afirmou que a ação foi baseada em uma denúncia anônima e que os agentes agiram dentro da legalidade. No entanto, a corporação reconheceu que a apreensão dos tambores pode ter sido excessiva e determinou a abertura de um inquérito para apurar a conduta dos militares envolvidos. “A corporação preza pelo respeito à diversidade religiosa e não tolera qualquer forma de discriminação”, diz trecho da nota.

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Reações e acusações de intolerância religiosa

O caso rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais, com entidades como a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Amazonas (CCIR-AM) classificando a ação como “um claro ataque à liberdade de culto”. Em nota, a CCIR-AM exigiu a devolução imediata dos objetos apreendidos e a punição dos responsáveis. “Não se pode tratar uma manifestação religiosa legítima como crime. Isso é um retrocesso inaceitável”, afirmou o presidente da comissão, Jorge Alves.

O Ministério Público do Amazonas (MP-AM) também anunciou que acompanhará as investigações. O promotor de Justiça Carlos Eduardo Silva destacou que a liberdade religiosa é um direito constitucional e que qualquer abuso deve ser coibido. “Vamos analisar se houve desvio de finalidade na ação policial e se os procedimentos legais foram respeitados”, declarou.

Contexto e histórico de violações

O episódio reacende o debate sobre a intolerância religiosa no Brasil, especialmente contra religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé. Dados do Disque 100, canal de denúncias do governo federal, indicam que os casos de intolerância religiosa aumentaram 45% nos últimos dois anos no Amazonas. Muitas dessas denúncias envolvem invasões e depredações de terreiros, sobretudo em áreas periféricas de Manaus.

Para o antropólogo e pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcos Vinícius Santos, a ação da PM reflete um padrão histórico de criminalização das religiões afro-brasileiras. “Infelizmente, ainda persiste o estigma de que esses cultos são ‘barulhentos’ ou ‘perigosos’. A polícia precisa de treinamento para lidar com a diversidade religiosa sem preconceito”, afirmou.

Próximos passos e pedidos de reparação

O inquérito da PM-AM deve ser concluído em até 30 dias. Enquanto isso, os tambores e demais objetos apreendidos permanecem sob custódia da corporação, mas a expectativa é que sejam devolvidos ao terreiro após a conclusão das investigações. O pai de santo do terreiro afetado afirmou que buscará reparação judicial pelo constrangimento e pelos danos materiais. “Não vamos aceitar calados. Nossa fé não é crime”, desabafou.

A Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos, se colocou à disposição para mediar o conflito e oferecer apoio às vítimas. O secretário municipal, Antônio Carlos Ribeiro, reforçou que a administração municipal repudia qualquer ato de discriminação e que promoverá uma campanha de conscientização sobre liberdade religiosa nas comunidades.

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