Padre Zezinho, um dos maiores nomes da música católica brasileira, está prestes a completar 85 anos de vida, em 8 de junho, e celebra seis décadas de sacerdócio neste ano. Para marcar a data, foi lançada sua primeira biografia autorizada, intitulada "Apenas Um Cidadão do Infinito: Vida e Missão de Pe. Zezinho", escrita pela jornalista Gabi Bonvechio, que atua como sua assessora desde 2019.
Uma trajetória marcada pela música e pela fé
Nascido José Fernandes de Oliveira em Machado, Minas Gerais, Padre Zezinho mudou-se para Taubaté ainda criança. Filho de pais com dificuldades de locomoção, cresceu em um bairro pobre e desde cedo esteve ligado à Igreja, atuando como coroinha e ajudando no convento onde sua mãe trabalhava como costureira e cozinheira. Aos 12 anos, ingressou no seminário dos padres dehonianos em Lavras, Minas Gerais, iniciando uma jornada que o levaria a estudar em diversas cidades do Brasil e, posteriormente, nos Estados Unidos.
Foi durante sua temporada nos EUA que Zezinho acompanhou, de longe, as transformações do Concílio Vaticano II, que modernizou a Igreja Católica. Ordenado padre em setembro de 1966, retornou ao Brasil no ano seguinte, trazendo consigo o violão e um estilo inovador de celebrar missas, com músicas contemporâneas e uma linguagem próxima do povo.
Música como ferramenta de evangelização
Padre Zezinho é autor de mais de 1,8 mil canções, muitas das quais se tornaram verdadeiros hinos populares, como "Oração pela Família", imortalizada na voz de Roberto Carlos. Sua música transcendeu os muros das igrejas, sendo regravada por artistas de diferentes estilos. O padre sempre fez questão de ressaltar que não é um cantor, mas um padre que canta, usando a música como instrumento de catequese e diálogo.
Para o teólogo Antonio Manzatto, da PUC-SP, Zezinho surgiu em um contexto de efervescência político-cultural nos anos 1960, quando a Igreja buscava novas formas de comunicação com a juventude. "Ele falava a língua do povo, ouvia os jovens e dialogava com eles, trazendo uma música contemporânea com violões, guitarras e baterias", destaca Manzatto.
Polêmicas e posicionamento social
Apesar de sua popularidade, Padre Zezinho sempre enfrentou críticas de setores conservadores da Igreja, especialmente por sua ênfase na doutrina social e na opção preferencial pelos pobres. Em maio, ao republicar um artigo do filósofo Romero Venâncio sobre extremistas católicos nas redes, foi alvo de ataques e vídeos falsos que o associavam ao comunismo. O padre, no entanto, mantém a serenidade: "Todos os dias sou agredido, mas essa gente é 2% dos católicos. Os outros 98% querem catequese e atualização".
Ele refuta o rótulo de progressista, preferindo se definir como "atualizador". "Sou da TL bíblica, não da TL marxista", afirma, referindo-se à Teologia da Libertação. Sua música "Prece Pelo Social" exemplifica seu compromisso com a justiça social, pedindo mais trabalho, salário e pão para todos.
Legado e reconhecimento
O vaticanista Filipe Domingues ressalta a coerência de Padre Zezinho, que sempre viveu o que pregou. Em 2019, foi inaugurado o Memorial Padre Zezinho no convento onde reside, em Taubaté, que abriga seu acervo pessoal. Para o sociólogo Rogério Baptistini, ele é "um patrimônio sólido do catolicismo brasileiro" e "um dos pioneiros da evangelização moderna".
A biógrafa Gabi Bonvechio, que entrevistou mais de 50 pessoas para o livro, afirma que o padre é frequentemente rotulado, mas que qualquer tentativa de colocá-lo em uma "caixinha" é injusta. "Ele fala de família, espiritualidade e piedade, mas também cobra justiça social", diz.
Apesar dos desafios de saúde — um AVC em 2012 e câncer de próstata diagnosticado em 2013 —, Padre Zezinho segue ativo nas redes sociais, com mais de 1 milhão de seguidores no Facebook, onde publica reflexões e artigos. "Sou um explicador", define-se. "Microfone não é para xingar, é para dialogar."



