Fotos inéditas do filhote do 'fantasma da floresta' encantam e ajudam ciência
Fotos inéditas do filhote do 'fantasma da floresta' encantam

Fotografias inéditas de um filhote recém-nascido do parauacu (Pithecia mittermeieri), primata conhecido como 'fantasma da floresta', foram registradas pela fotógrafa de natureza Cibele Manfredini durante expedição em São José do Rio Claro (MT). As imagens mostram o animal ainda com aspecto de nascimento recente, agarrado à barriga da mãe. O registro é considerado raro e de grande valor científico, pois a espécie é uma das menos conhecidas do Brasil.

Registro emocionante e raro

O encontro ocorreu enquanto a equipe acompanhava o trabalho de pesquisadoras que monitoram a espécie na região da pousada Jardim da Amazônia. A bióloga Miriéli Costa Ramos, que pesquisa o macaco-aranha-de-cara-preta na mesma área, contou: 'Estávamos à procura do grupo há algumas horas e, quando encontramos, eu estava com os binóculos olhando eles passando em cima da minha cabeça. Foi então que eu vi um indivíduo passando com algo grudado na barriga. Na hora eu gritei: ''Loianne, filhote!''. Entramos em êxtase. Parecia um nascimento bem recente.'

Segundo Loianne Curvo Gottardi Belote, professora e bióloga que estuda a espécie, as fotos preenchem lacunas sobre a história natural do primata. 'Em 2024 tivemos o conhecimento de um filhote, e um guia local registrou a cena, porém não foi divulgado. Agora essas fotos serão publicadas tanto na literatura científica quanto na mídia para toda a população', explicou.

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Desafios e contribuição científica

Fotografar o parauacu adulto já é um grande desafio, devido ao hábito de permanecer nas copas das árvores e ao comportamento críptico. Cibele Manfredini destacou: 'Percorremos muitas horas em busca deles. É desafiador fotografá-los, pois normalmente estão quase na copa das árvores. E carregar um equipamento de fotografia pesado exige muita força física e mental.' As imagens do filhote permitiram identificar que se trata de um macho, informação importante para os estudos populacionais.

O Pithecia mittermeieri é uma das 16 espécies do gênero, com 10 ocorrendo no Brasil. Endêmico do país, foi descrito em 2014 após revisão taxonômica liderada por Laura Marsh. O nome científico homenageia o primatólogo Russell Mittermeier. Devido à pelagem que mistura cinza, amarelo, preto e laranja, o animal se camufla perfeitamente na floresta, sendo chamado de 'fantasma'. Loianne explica: 'Essa paleta de cores funciona como uma camuflagem perfeita nas copas das árvores, e ele é um verdadeiro fantasma da floresta devido ao seu comportamento críptico. Ao pressentir qualquer distúrbio, ele congela em um lugar e, muitas vezes, se torna praticamente invisível.'

Características e ameaças

O parauacu possui vocalização muito baixa, grande quantidade de pelos e cauda volumosa que não funciona como quinto membro. Adultos pesam entre 1,5 e 4 kg, com machos medindo cerca de 46 cm de corpo (sem cauda) e fêmeas, 37 cm. A espécie ocorre entre os rios Madeira e Tapajós, em Rondônia, Pará e Mato Grosso. Em São José do Rio Claro, vive em um fragmento de floresta isolado pela expansão agrícola. As pesquisas buscam entender como essa pressão afeta seu comportamento e sobrevivência.

Classificado como Vulnerável (VU) pela IUCN, o primata sofre com a perda de habitat no arco do desmatamento. 'Essa classificação carrega um grande desafio, que é a falta de dados na literatura científica sobre a espécie. Na prática, o parauacu-de-Mittermeier está sob ameaça devido à rápida perda de habitat no arco do desmatamento e à pressão do agronegócio, mas ainda carecemos de informações básicas para entender o real tamanho e a saúde de suas populações', pontua Loianne.

Pesquisa pioneira e descobertas

Loianne iniciou o primeiro trabalho de campo focado no parauacu em setembro de 2023, como parte de seu doutorado. A cada 30 dias, a equipe retorna à floresta para coletar dados. Já documentaram alimentação, reprodução e uma dinâmica de cooperação familiar no cuidado com filhotes, além de amamentação prolongada. 'Essa é a prova de que persistir no campo recompensa o pesquisador com descobertas extraordinárias', afirma.

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Os parauacus atuam no controle de espécies vegetais e na dispersão de sementes. 'Ao predar sementes, eles atuam no controle populacional de algumas espécies vegetais, mantendo o equilíbrio da flora. Além disso, nem sempre eles destroem a semente. Em várias ocasiões, os animais manipulam os frutos e deixam sementes viáveis caírem intactas no solo, ou as transportam de forma que elas acabam germinando na terra, atuando assim como dispersores', explica Loianne.

Integração com turismo e educação

A área de pesquisa integra o núcleo mais recente das Rotas dos Primatas do Mato Grosso, iniciativa que une ciência, turismo e conservação. Loianne destaca: 'O sucesso de uma pesquisa de longo prazo não se faz de forma isolada. Ele depende diretamente de uma rede de apoio técnico e científico de alto nível. E é isso que estamos desenvolvendo.' As pesquisas também deram origem ao projeto pedagógico Conexões Primatas e Clima em Foco, que trabalha a conservação dos primatas por meio da educação ambiental.