De celulares a maquiagens, produtos apreendidos pela Receita Federal no Rio de Janeiro ganham nova utilidade. Uma parte das mercadorias que entram no país sem pagamento de impostos ou de forma irregular está deixando de ser destruída e sendo transformada e doada para instituições, projetos sociais e órgãos públicos.
No depósito da Receita Federal no Rio, estão armazenadas toneladas de produtos apreendidos em operações realizadas em estradas, no Porto do Rio, no Porto de Itaguaí e no Aeroporto Internacional do Galeão. São celulares, tablets, relógios, motos elétricas, bebidas, roupas, calçados, lâmpadas e até cabelo sintético. O local tem dezenas de corredores e quatro andares com pilhas de mercadorias que chegam a passar de dez metros de altura. Por questões de segurança, a Receita não divulga a localização do depósito.
De apreensão a benefício social
Durante anos, boa parte desse material era destinada a leilões ou destruída. Agora, uma parcela das mercadorias recebe uma nova função. Segundo a Receita Federal, em 2025, as alfândegas do Porto de Itaguaí, Porto do Rio e do Galeão doaram mais de R$ 78 milhões em produtos apreendidos ou abandonados. O valor representa 24,46% do total apreendido no período, que ultrapassou R$ 319 milhões. Quase 300 instituições e órgãos públicos foram atendidos.
Antes da doação, os produtos passam por uma etapa obrigatória: a descaracterização. O procedimento impede que a mercadoria volte ao mercado da mesma forma em que foi apreendida. “Antes a gente destruía esse material e era um grande problema: gasto de recurso público, contratação de empresa para fazer a destruição e o impacto ambiental do resíduo dessa destruição. Hoje essas mercadorias são transformadas e aplicadas num fim social”, explicou Claudiney Cubeiro dos Santos, superintendente da Receita Federal no Rio.
O reaproveitamento acontece de diferentes formas. Vinhos apreendidos podem virar geleias. Cigarros ilegais são queimados e transformados em biocarvão usado na agricultura. Equipamentos piratas de canais de TV são adaptados para virar mini computadores usados por alunos de escolas públicas. Roupas falsificadas também ganham outra utilidade. Camisas que seriam destruídas são transformadas em peças de bebê e distribuídas para famílias de baixa renda.
“É um processo de dar um novo sentido para essas peças e também para as mulheres que estão aprendendo a costura, para as mães que recebem o enxoval”, contou Raquel Spinelli, de um projeto beneficiado.
Maquiagem apreendida vira arte
Outro destino inusitado está em um ateliê no Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio. Quilos de maquiagem apreendida foram parar nas mãos da artista May Ramasine. O material, que não poderia mais ser usado na pele, virou tinta para quadros. A história começou na infância, quando May usava maquiagem da mãe para pintar cadernos depois que ela descobriu um câncer e já não conseguia comprar materiais escolares. Anos depois, ela encontrou um batom guardado da mãe e usou o produto para fazer seu primeiro quadro.
Hoje, May já recebeu mais de 14 mil embalagens de maquiagem apreendidas. Com o material, produz obras e oferece aulas gratuitas para crianças e adolescentes da comunidade. “É pegar esse material que já foi apreendido e transformar em arte. Vai além do ato de pintar: é educação ambiental e educação de consumo também”, afirmou a artista. Nas aulas, os alunos descobrem novas possibilidades para produtos que antes seriam descartados. “Eu achava que maquiagem era só para passar no rosto. Quando vim fazer aula, descobri que dava para colocar na tela e fazer uma arte”, contou uma aluna.
A Receita Federal afirma que o reaproveitamento dos materiais reduz custos com destruição e evita o descarte de resíduos. Os produtos, depois de retirados de circulação e preparados para uma nova finalidade, passam a ser usados por instituições e projetos sociais.



