Quase 220 anos após a chegada da Família Real portuguesa ao Brasil, que fixou o sistema de notação musical europeu, institutos e museus do Rio de Janeiro preservam algumas das partituras mais valiosas da história musical do país. As páginas, manuscritas ou impressas, atraem pesquisadores brasileiros e estrangeiros, mas não em quantidade suficiente para analisar todo o material. Parte considerável está disponível para consulta presencial, mediante agendamento; outras, em acervos digitalizados.
Acervos e tesouros musicais
O g1 conversou com responsáveis por acervos de partituras e viu de perto relíquias cautelosamente guardadas — geralmente envoltas em papel alcalino, caixas e, em alguns casos, com sistemas de controle de temperatura e cofres. Entre as preciosidades estão o manuscrito original do Hino Nacional, composto por Francisco Manuel da Silva, na Escola de Música da UFRJ; a partitura de "Pelo Telefone", registrada por Donga, na Biblioteca Nacional; obras de Radamés Gnatalli na Casa do Choro e no Museu da Imagem e do Som; manuscritos de Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga no Instituto Moreira Salles; a partitura de "Chega de Saudade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, em versão escrita para Jacob do Bandolim, no Museu da Imagem e do Som; uma partitura escrita em saco de vômito de avião (não usado) pelo violonista Canhoto da Paraíba, também no MIS; e a partitura manuscrita de "Garota de Ipanema", com um desenho da personagem, no Instituto Antônio Carlos Jobim.
Na Biblioteca Nacional, há ainda uma partitura com pauta de quatro linhas, anterior ao sistema do pentagrama, que pertenceu à Família Real. Esse tipo de sistema era usado em músicas sacras antes do pentagrama se tornar dominante.
Por que o Rio concentra tantas partituras raras?
Segundo especialistas, a concentração se deve a dinâmicas após a chegada da Família Real em 1808 e movimentos migratórios quando a cidade se tornou capital e após o fim da escravidão. "Desde o final do século XVIII e especialmente com a chegada da corte portuguesa aqui em 1808, havia uma circulação muito grande de músicos, de compositores de vários estados, inclusive de várias regiões do Brasil e também do exterior. Então, o Rio de Janeiro acabou tendo essa centralidade na criação dos principais gêneros reconhecidos hoje como tipicamente brasileiros, como, por exemplo, o choro", explica André Cardoso, da Escola de Música da UFRJ.
Tom Retz, coordenador do Centro de Pesquisa Jacob do Bandolim, acrescenta que a cidade atraiu músicos escravizados que tocavam em orquestras de fazendas. "As pessoas vinham em busca também de uma elite burguesa, que consumia esse tipo de arte. Então tem uma migração que sai das Minas Gerais, porque durante muito tempo no interior do Brasil, onde tinham as minas e as fazendas, tinham músicos das orquestras das fazendas. O músico escravizado tinha um status diferenciado", lembra.
Destaques de cada acervo
Biblioteca Nacional
O Acervo de Música e Arquivo Sonoro reúne mais de 250 mil peças, entre partituras, livros, fotografias, programas de concerto, manuscritos, libretos, discos e outros arquivos sonoros. A BN é frequentemente classificada como o maior centro de documentação musical da América Latina. Há itens a partir do século XVII, incluindo partituras da coleção D. Thereza Christina Maria, doada por Dom Pedro II em 1891. Destacam-se manuscritos de choro de Joaquim Callado e Ernesto Nazareth, e a partitura de "Pelo Telefone", considerada o primeiro samba registrado. A autoria é debatida até hoje — o consenso é que foi uma criação coletiva na casa de Tia Ciata. Como consultar: partituras digitalizadas estão disponíveis no site da BN; para consulta presencial, é necessário agendar pelo portal gov.br.
Escola de Música da UFRJ
Criada como conservatório em 1848, a escola possui 170 mil obras, entre partituras manuscritas e impressas, documentação histórica e livros raros. A biblioteca guarda os originais dos quatro principais hinos brasileiros: Nacional, da Independência, da Bandeira e da Proclamação da República. O Hino Nacional tem uma caixa de madeira e é mantido em envelope de papel alcalino e cofre. Há também a partitura manuscrita da Missa de Requiem (1816), de José Maurício Nunes Garcia, encomendada por Dom João VI para as exéquias da rainha Dona Maria I. Como consultar: agendamento pelo e-mail biblioteca@musica.ufrj.br.
Instituto Antônio Carlos Jobim
O instituto guarda 1,2 mil partituras manuscritas e editadas de Tom Jobim, além de partituras de Chico Buarque, Milton Nascimento, Paulo Moura e Dorival Caymmi. Entre os destaques, a partitura de "Garota de Ipanema" com um desenho da moça. Como consultar: on-line pelo site do instituto.
Casa do Choro
Com mais de 20 mil partituras catalogadas, a Casa do Choro preserva manuscritos de Radamés Gnatalli e Altamiro Carrilho, e realiza pesquisas constantes. Entre as raridades, cadernos de um "chorão" português do século XIX e obras de compositores pouco conhecidos. Como consultar: acervo digitalizado no site; agendamento presencial pelo e-mail acervo@casadochoro.com.br.
Museu da Imagem e do Som
Possui 84.997 partituras catalogadas, com coleções importantes como a do radialista Almirante e a Coleção Rádio Nacional. Destaques: partitura de "Chega de Saudade" escrita por Tom Jobim para Jacob do Bandolim, e a partitura no saco de vômito de Canhoto da Paraíba. Como consultar: e-mail saladepesquisa@mis.rj.gov.br.
Instituto Moreira Salles
A Reserva Técnica Musical reúne cerca de 20 acervos, incluindo os de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Baden Powell. O acervo de Pixinguinha tem aproximadamente mil conjuntos de partituras com arranjos do próprio compositor. Como consultar: material digitalizado no site de música do Instituto.
Outros acervos
O Museu Histórico Nacional tem partituras de óperas de Carlos Gomes; a Biblioteca do CCBB RJ abriga a Sala Mozart de Araújo, com partituras de música e folclore brasileiro; e o portal Musica Brasilis oferece mais de 6.919 partituras em PDF para download gratuito, quando em domínio público.



