O paradoxo do desperdício de alimentos no Brasil
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo desperdiça cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos por ano. No Brasil, enquanto milhões de toneladas são perdidas, aproximadamente 7 milhões de pessoas passam fome, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse cenário paradoxal revela falhas em todas as etapas da cadeia produtiva, desde o campo até a mesa do consumidor.
Desperdício no campo: múltiplos fatores
Pesquisadores da Embrapa apontam que as perdas nas lavouras são significativas, embora não haja dados oficiais consolidados. Entre as principais causas estão:
- Falta de acesso a mercados: alimentos perecíveis como alface, morango e banana precisam ser comercializados rapidamente após a colheita.
- Mudanças climáticas: secas, chuvas excessivas e altas temperaturas prejudicam as safras.
- Pragas e doenças: sem manejo adequado, podem destruir plantações inteiras.
- Baixa adoção de tecnologia: inovações poderiam aumentar a conservação e eficiência da colheita.
- Exigência estética do mercado: frutas e verduras fora do padrão são rejeitadas.
- Picos de produção: safras abundantes geram excedente sem compradores ou com preços inviáveis.
- Problemas logísticos: transporte inadequado, como falta de refrigeração e embalagens impróprias, danifica os produtos.
Sobras no varejo e nos restaurantes
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que varejo e restaurantes desperdiçam 427 milhões de toneladas de alimentos globalmente. No Brasil, a prática de venda consignada nos supermercados agrava o problema: o varejista só paga ao produtor pelos itens vendidos, incentivando pedidos excessivos. Iniciativas como o Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA) e o Sesc Mesa Brasil atuam na doação de excedentes para instituições que atendem pessoas em vulnerabilidade.
Desperdício doméstico: hábitos e cultura
Mais da metade do desperdício ocorre nas residências: 631 milhões de toneladas em 2022, segundo o Pnuma. Além da qualidade inferior dos produtos adquiridos em mercados mais baratos, fatores culturais contribuem:
- Preferência pela fartura: compras sem planejamento, baseadas na expectativa de volume, geram sobras.
- Hábito de estocar: devido à inflação histórica, muitas famílias acumulam alimentos que acabam esquecidos e estragam.
Impactos sociais e ambientais
O desperdício de alimentos agrava a fome e a insegurança alimentar, que atinge 18,9 milhões de famílias brasileiras, segundo o IBGE. Ambientalmente, a decomposição dos resíduos libera metano e chorume, contaminando o solo e a água. Economicamente, o Banco Mundial estima uma perda global de US$ 1 trilhão por ano. Daniela Teston, do WWF-Brasil, ressalta que a redução do desperdício poderia baratear itens básicos, beneficiando a população de baixa renda.
Soluções e exemplos positivos
Iniciativas como a citricultura com desperdício zero no interior de São Paulo mostram que investimentos em tecnologia e boas práticas podem reduzir perdas. A série "PF: Prato do Futuro" do g1 acompanha essas soluções, destacando o potencial de transformação do sistema alimentar brasileiro.



