Obras no estádio do Juventus em SP ocorrem sem autorização do Conpresp
Obras no estádio do Juventus sem aval do Conpresp

As obras de reforma no icônico Estádio Conde Rodolfo Crespi, conhecido como Rua Javari e localizado na Mooca, Zona Leste de São Paulo, começaram sem a devida autorização da Prefeitura e do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico (Conpresp). O estádio, que pertence ao Clube Atlético Juventus, é tombado por seu valor arquitetônico e histórico, o que torna obrigatório o aval do órgão antes de qualquer intervenção.

Obras iniciadas após título da Série A2

De acordo com moradores e comerciantes da região, os trabalhos tiveram início poucos dias após o Juventus vencer a Ferroviária na final da Série A2 do Campeonato Paulista, em 13 de maio, garantindo o retorno à elite estadual após 19 anos. Desde então, a movimentação de operários e o barulho de construções se tornaram constantes. No final de maio, um vizinho registrou o momento em que o alambrado e os bancos de reservas de concreto eram demolidos por uma máquina. Uma arquibancada lateral e um ginásio de futsal próximo à entrada da Rua Javari também foram completamente derrubados.

Análise do projeto ainda em andamento

A Prefeitura informou que o pedido de restauro das edificações tombadas, demolição de construções anexas não protegidas e novas intervenções ainda está em análise técnica pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Somente após essa avaliação, o Conpresp poderá autorizar ou não as obras. Um pedido de alvará também está sendo analisado pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. Em nota, a Secretaria Municipal de Cultura afirmou que a avaliação considera se o projeto atende às exigências de restauro, conservação e requalificação do imóvel tombado, bem como a viabilidade em parceria com a SAF-Juventus. A gestão municipal não respondeu sobre possíveis punições ao clube pelo início antecipado das obras.

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Venda de souvenirs e ampliação da capacidade

A SAF que dirige o Juventus não quis detalhar o projeto nem a dimensão atual das obras. No entanto, a loja oficial do time começou a vender cadeiras originais numeradas e pedaços do alambrado nas redes sociais. “Eternize um pedaço da Javari”, diz o anúncio. Um dos principais objetivos da reforma é ampliar as arquibancadas para receber até 15 mil torcedores, triplicando a capacidade atual, atendendo ao parâmetro da Federação Paulista de Futebol para a Série A1 em 2025.

Estádio é patrimônio de São Paulo

Inaugurado em 1941, o Estádio Conde Rodolfo Crespi teve suas características arquitetônicas reconhecidas como patrimônio da cidade em 2016. Uma resolução do Conpresp determinou a preservação dos muros, entrada principal, bilheterias, arquibancadas, gerais e o campo. Construções erguidas após o projeto original podem ser alteradas ou demolidas, mas com “apreciação caso a caso”. Em março, a SAF-Juventus enviou um projeto de restauro e reforma, acompanhado de relatório fotográfico que aponta danos estruturais, como rachaduras e infiltrações, além de descaracterização arquitetônica causada por “edificações espúrias”, incluindo o ginásio demolido.

Especialista aponta irregularidade

O arquiteto e urbanista Silvio Oksman, especialista em preservação do patrimônio, afirma que a reforma começou de forma irregular. “Se ainda está em aprovação, não pode acontecer nada por lá.” Segundo ele, a restrição é geral até a decisão do Conpresp, pois o tombamento abrange todo o lote. Oksman critica a resolução do conselho por ser vaga ao definir “apreciação caso a caso” para intervenções em áreas não tombadas, sugerindo que o documento deveria ser mais claro.

Recurso para restauro foi desviado

O projeto de restauro marca uma virada de página para o Juventus, que no ano passado foi multado pela prefeitura e teve ex-dirigentes investigados por suspeita de desvio de dinheiro destinado à conservação do estádio. Em 2022, o clube obteve autorização para vender o “potencial construtivo” não utilizado, arrecadando cerca de R$ 2,3 milhões, que deveriam ser aplicados no patrimônio tombado. No entanto, passados quase três anos, o projeto não havia sido apresentado, gerando uma multa de R$ 2,9 milhões em 2025 e a necessidade de devolução integral dos recursos ao Fundo de Proteção do Patrimônio Cultural (Funcap).

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Investigação policial

Durante a transição para a SAF, a nova diretoria encontrou indícios de desvio dos recursos para quitar empréstimos pessoais de ex-dirigentes. O caso é investigado como lavagem de dinheiro pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania. A investigação identificou empresas suspeitas de custear repasses. Diante das evidências, o Conpresp suspendeu a multa contra o Juventus enquanto analisa o projeto apresentado em março, com decisão final após conclusão técnica.