Áudios obtidos pelo Ministério Público de São Paulo revelam como dois advogados presos na terça-feira (23) no interior paulista vazavam informações sigilosas para alertar integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) sobre operações policiais. A dupla, alvo da Operação Backdoor, usava a senha de uma promotora de Justiça para acessar os dados.
Detalhes da Operação Backdoor
Deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Polícia Militar, a operação prendeu temporariamente, por cinco dias, os advogados Guilherme Gilbertoni Anselmo e Jonatas Alves Moraes, em Jaboticabal (SP) e Taquaritinga (SP). Eles são suspeitos de vazar dados judiciais a membros do PCC. Segundo as investigações, com isso, grande parte dos alvos da organização criminosa conseguiu fugir do cumprimento de mandados autorizados pela Justiça.
Uso de senha de promotora
A força-tarefa apurou que os advogados utilizaram a senha de uma promotora de Justiça para ter acesso a processos sigilosos contra criminosos investigados por homicídios. Antes de acessar os processos, eles foram avisados por uma ex-estagiária do Ministério Público, hoje advogada e também alvo da operação, que é sobrinha de um integrante do PCC suspeito de participação em um 'tribunal do crime'.
Conteúdo dos diálogos
Em uma das conversas interceptadas, Anselmo afirma: "Já sei o que tá acontecendo, já sei qual que é a operação, já sei quem é que tá envolvido". A conversa ocorreu em 19 de abril de 2024, apenas dois dias após os dados do processo serem inseridos no sistema do Tribunal de Justiça de São Paulo, quando a Promotoria ainda precisaria se manifestar sobre pedidos de prisão contra integrantes do PCC. Em outro diálogo, de 23 de abril, Anselmo confirma a um outro advogado ter tido acesso a uma representação policial contra um homem investigado por participação em um 'tribunal do crime' do PCC: "Essa semana aqui é pra cantar um mandado de prisão pra ele. (...) Eu tô te falando porque eu já vi a representação. (...) Tá engatilhado aí, se bobear sai até hoje isso daí."
Serviços de advocacia e pagamentos
Em 3 de julho de 2024, Anselmo fala sobre seus serviços a um suspeito de atuar com tribunais do crime do PCC, apontado como um dos principais beneficiários do vazamento: "Eu não tô aqui pra te vender fumaça nem nada. E a proposta que eu vou te fazer é neste processo." Em abril de 2025, esse mesmo investigado prometeu enviar dinheiro para pagar hospedagem de Anselmo, dizendo: "Fica em paz que eu vou te mandar sim um dinheiro pra você ficar lá, hospedar lá, ficar em paz lá, tranquilão lá e voltar, tá bom? (...) Eu não tenho como assinar contrato não, até porque não tem nem como nem falar que foi eu que te paguei, porque vou provar que eu tirei dinheiro da onde?"
Ação coordenada
Os diálogos também revelam que Anselmo e Moraes atuavam de maneira coordenada para monitorar o sistema judicial com credenciais subtraídas de uma promotora. Em abril de 2024, Anselmo pede a Moraes que o atualize sobre decisões de um juiz: "Tão logo o colega tiver conhecimento da decisão do magistrado peço a fineza só de me comunicar."
Defesas dos investigados
A defesa de Guilherme Anselmo informou que não iria se manifestar. Já os advogados de Jonatas Alves Moraes, Danielle Riegermann Ramos Damião e Olavo Hamilton Ayres Freire de Andrade, em nota, afirmaram que ele "nega integralmente a autoria e qualquer envolvimento nos fatos investigados. Todas as circunstâncias serão devidamente apuradas pelas autoridades competentes, com observância do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa."



