Operação Sintonia de Gravata: 10 advogados presos na BA viram réus
Operação Sintonia de Gravata: 10 advogados presos na BA

A Operação Sintonia de Gravata, deflagrada na Bahia para desarticular um esquema envolvendo facções criminosas no sistema prisional, resultou na prisão de dez advogados. Quatro deles — Izabela da Silva de Oliveira, Luã Santos da Costa, Maria Mariana Batista de Oliveira e Tamires Felix Alves Silva — tiveram as prisões temporárias convertidas em preventivas após audiências de custódia realizadas em Salvador no domingo (5). Com a decisão, os quatro foram transferidos do Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) para o sistema prisional. Outros dois investigados, Ícaro Cardoso Viana e Fernanda Oliveira Borges, foram presos em Serrinha, e suas audiências de custódia ficaram a cargo da justiça local. O processo tramita sob segredo de Justiça, e detalhes oficiais das investigações não foram divulgados.

Investigação revela articulação entre advogados e facções

A ação investiga a atuação de grupos criminosos envolvidos em tráfico de drogas, aquisição, circulação, posse e guarda de armas de fogo, além da articulação entre integrantes custodiados e agentes em liberdade. Doze detentos que já estavam presos também tiveram mandados de prisão cumpridos. Inicialmente, nove dos advogados buscados foram localizados; o décimo, Joanderson Almeida dos Santos, foi preso no final da tarde de sexta-feira (3), escondido em uma residência em Marcionílio Souza, a 350 km de Salvador. Ao todo, foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão expedidos pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Eunápolis, com diligências em Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Feira de Santana, Serrinha e Barreiras.

Segundo apuração da TV Bahia, os advogados presos atuavam para diversos chefes de facções. Maria Tereza Novaes Martins, por exemplo, atuaria em favor de Victor de Freitas Silva, conhecido como "Da Jega", líder do Comando Vermelho (CV) em Feira de Santana. Izabela da Silva de Oliveira atuaria para Averaldo Ferreira da Silva Filho, o "Averaldinho", chefe do Bonde do Maluco (BDM) em Salvador. Luan Mascarenhas de Souza atuava para Francisleno de Jesus Nunes; Ícaro Cardoso Viana, para Gleidson Bomfim do Nascimento, Ademilton Mercês Alves e Décio Douglas Silva Oliveira, o "Vaqueiro", do BDM. Luã Santos da Costa atuava para Leandro da Conceição Santos Fonseca, o "Léo Gringo", chefe do BDM, e Wesley Willian Alves dos Santos. Fernanda Oliveira Borges atuava para Marlos Araújo Souza Junior, o "Bolão", vinculado ao Terceiro Comando Puro (TCP). Tamires Felix Alves Silva atuava para Décio Douglas Silva Oliveira, o "Vaqueiro". Maria Mariana Batista de Oliveira atuava para Fabio Santana Oliveira, o "Panda", chefe do CV em Capim Grosso; José Lucas Silva Rocha, o "Índio", do CV em Eunápolis; e Victor de Freitas Silva, o "Da Jega".

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Gravações mostram advogados recebendo ordens de traficantes

O Fantástico divulgou no domingo (5) imagens de câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório do presídio, que registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, momentos em que os advogados recebiam e transmitiam instruções detalhadas sobre compra e venda de armas, contabilidade do tráfico de drogas, e planejamentos de homicídios e sequestros. Os bilhetes com as diretrizes eram escondidos sob as roupas íntimas para burlar a fiscalização. "Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime", afirmou o coordenador do Gaeco do MP-BA, Luiz Ferreira de Freitas Neto. "Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios."

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As gravações revelaram a atuação individualizada de integrantes do grupo. Ícaro Cardoso Viana foi registrado recebendo instruções para recolher duas pistolas com a tia de um criminoso e fazendo anotações enquanto um preso ditava preços de drogas usando codinomes como "peixe" (cocaína), "óleo" (crack) e "chá" (maconha). A contabilidade incluía o uso de cheques bancários. Fernanda Oliveira Borges foi filmada retirando papéis com informações de dentro de suas vestes, enquanto detentos ditavam balanços financeiros de entorpecentes, ordens de cobrança de dívidas sob ameaça e anotações sobre sequestros. Maria Mariana Batista de Oliveira, em um dos vídeos, chora com um preso ao informá-lo sobre a morte de um comparsa morto em confronto com a PM no Rio de Janeiro durante a Operação Contenção, que deixou 122 mortos em outubro de 2025. Depois, o detento afirma que pretende matar policiais, enquanto a advogada repassa dados sobre o paradeiro de uma carabina e frações de munição, além de receber instruções sobre como embalar cocaína em pinos plásticos para venda.

Defesas e OAB se manifestam

A defesa das advogadas Tamires Felix Alves Silva e Izabela da Silva de Oliveira, representada pela Associação dos Advogados Criminalistas da Bahia (AACB), manifestou "profunda preocupação com a forma como vêm sendo conduzidos e divulgados os desdobramentos da denominada Operação Sintonia de Gravata". A AACB afirmou que não teve acesso à integralidade dos autos até a tarde de sábado (4) e questionou a legalidade das gravações, que teriam sido feitas por 60 dias consecutivos, alcançando potencialmente conversas de profissionais não investigados. "Caso confirmada a captação indiscriminada de diálogos de advogados e advogadas não investigados, estar-se-á diante de grave violação ao sigilo profissional", diz a nota. A OAB Bahia informou que acompanhou o cumprimento dos mandados e solicitou acesso aos autos ao Tribunal de Justiça. A presidenta da OAB-BA, Daniela Borges, determinou que o material seja encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina para eventual suspensão preventiva dos advogados envolvidos.