O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) denunciou a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos e o policial militar Michael Bruno Lopes Santos pelos crimes de tentativa de homicídio qualificada, tortura majorada e tentativa de aborto contra a empregada doméstica Samara Regina Dutra Soares, de 19 anos. A vítima estava grávida de cinco meses na época das agressões, ocorridas em 17 de abril de 2024, em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís.
Acusação falsa de furto e agressões brutais
Segundo a denúncia, Samara foi submetida a uma sessão de tortura física e psicológica após ser acusada falsamente de furtar um anel avaliado em R$ 5 mil. A investigação concluiu que a joia nunca foi furtada: o anel foi encontrado posteriormente em um cesto de roupas da própria residência. Mesmo após a descoberta, as agressões continuaram.
Em áudios apreendidos durante a investigação, Carolina admite as agressões. Em uma gravação, ela afirma que bateu "tanto nessa mulher que até hoje minha mão tá aqui inchada". Em outro trecho, diz que a vítima "não era nem para ter saído viva". A investigação aponta que Samara sofreu coronhadas, foi arrastada pelos cabelos e recebeu socos e tapas.
Intenção de matar e risco de aborto
De acordo com o MP-MA, os denunciados agiram com intenção de matar a jovem e assumiram o risco de provocar a interrupção da gestação. Carolina Sthela foi presa preventivamente no Piauí, quando tentava fugir para outro estado, e está custodiada no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. Michael Bruno também está preso preventivamente, após se apresentar à Polícia Civil.
A defesa de Carolina Sthela informou que tomou ciência da denúncia e que conduzirá a defesa de acordo com as técnicas jurídicas que o caso requer. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do policial militar.
Antecedentes da empresária
Carolina Sthela atua como empresária no ramo de consultoria em gestão administrativa, financeira e organizacional. Após a repercussão do caso, ela e o marido desativaram os perfis pessoais e as páginas da empresa nas redes sociais. Segundo dados da Receita Federal, Carolina foi sócia de duas empresas, ambas com CNPJs considerados inaptos em 2024 por omissão de declarações fiscais.
Antes de atuar como empresária, Carolina trabalhou em uma escola de natação pertencente a uma irmã. Ela e o marido foram condenados por desviar mais de R$ 20 mil da empresa, entre dezembro de 2020 e março de 2021, por meio do recebimento de mensalidades em contas pessoais.
Segundo a Polícia Civil, Carolina responde a mais de dez processos judiciais. Em um deles, foi condenada por calúnia após acusar falsamente uma ex-babá de furtar uma pulseira de ouro. A pena de seis meses de prisão em regime aberto foi substituída por prestação de serviços à comunidade e pagamento de R$ 4 mil por danos morais, indenização que ainda não foi paga, segundo a vítima.
Papel do policial militar nas agressões
Michael Bruno Lopes Santos é policial militar lotado no 21º Batalhão da PM-MA. Além do inquérito criminal, ele responde a procedimento administrativo disciplinar. A corporação informou que não compactua com desvios de conduta.
Segundo o MP, Michael participou diretamente da tortura: permaneceu armado, desferiu uma coronhada na testa da jovem, arrastou-a pelos cabelos e a obrigou a ficar ajoelhada sob mira de arma. Ele também manteve Samara imobilizada para que Carolina continuasse as agressões. A vítima foi ameaçada de morte e coagida a confessar o furto.
Provas e situação legal
A denúncia é sustentada por exames de corpo de delito, laudos periciais que apontaram lesões e perda auditiva, registros de acionamentos da PM pelo 190 e os áudios apreendidos. Os dois denunciados permanecem presos preventivamente e respondem à ação penal.
Conduta de policiais que atenderam a ocorrência
Os quatro policiais militares que atenderam a ocorrência – sargento Cerqueira, cabo Henrique e soldados De Sá e Yuri – estão sob investigação administrativa e foram afastados das funções nas ruas. A investigação começou após a divulgação de áudios em que a empresária afirma que não foi presa em flagrante por conhecer um dos policiais.
Em áudios obtidos pela investigação, Carolina descreve a abordagem: um dos agentes teria orientado que ela não confessasse as agressões. "Tu não pode dizer que tu bateu, tu não pode confessar, tu é doida?", disse Carolina em referência ao sargento. A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão abriu investigação para apurar a conduta dos agentes.



