A Polícia Civil do Espírito Santo investiga a morte de Gilberto Aurich, lavrador de 32 anos, ocorrida no Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE), em Vitória, após indícios de falsificação de uma prescrição médica usada para administrar sedativos durante a internação. O caso veio à tona depois que uma médica registrou boletim de ocorrência informando que sua assinatura foi falsificada por outro profissional.
Internação e morte do paciente
Gilberto Aurich, morador de Itaguaçu, no Noroeste do Espírito Santo, deu entrada no HEUE no dia 4 de abril, após sofrer um acidente de moto. Segundo a família, ele caiu quando o descanso da motocicleta cedeu ao chegar em casa, resultando em fratura na mandíbula. Aguardava cirurgia bucomaxilofacial e, durante a internação, chegou a enviar mensagem a um amigo relatando demora: "Tô quase doido aqui dentro. Sem comida, mandaram fazer uma dieta, mas veio um médico dizer que só vai operar sábado ou domingo", disse Gilberto.
Ele morreu na madrugada de 21 de junho, mais de dois meses após a internação. A certidão de óbito aponta como causas tromboembolismo cardiopulmonar, sepse, pneumonia e fratura de mandíbula decorrente de acidente motociclístico.
Suspeita de falsificação de prescrição
A médica Paola Morellato Prandi registrou Boletim de Ocorrência em 20 de abril. Segundo o documento, imagens do sistema interno do hospital mostram que um enfermeiro, posteriormente identificado como Gerismar Silva Sousa, entrou na sala da médica, utilizou o login profissional dela para reimprimir uma prescrição e falsificou a assinatura. A medicação foi administrada com base nessa prescrição, que incluía haloperidol, clorpromazina, prometazina e diazepam, com justificativa de agitação.
Um segundo boletim, registrado pelo advogado da associação gestora do hospital, relaciona o episódio a Gilberto e identifica o enfermeiro. O advogado informou que o profissional "não integrava a equipe responsável pelo paciente e encontrava-se lotado em setor diverso", e que a médica negou ter atendido Gilberto ou assinado o documento. As câmeras de segurança indicam que o enfermeiro entrou em um consultório sem autorização e saiu portando a prescrição.
Investigação e reações
A Polícia Civil informou que o caso segue sob investigação e não divulgou detalhes. O advogado da família, Leandro Sarnaglia, afirmou: "Nós vamos acompanhar o inquérito policial para ficar bem claro, bem delimitado a responsabilidade criminal de cada envolvido neste evento".
A mãe de Gilberto, Hilda Aurich, desabafou: "Eu não aceito isso, meu filho foi bem, para voltar dentro de um caixão, eu não aceito isso". Ela também relatou o impacto emocional: "Eu choro, não durmo direito, eu não como direito. É muito triste viver assim, porque a gente vivia de porta a porta, ele me ajudava, o que eu precisava ele estava sempre por perto. E é uma dor insuportável quando a mãe perde um filho".
Posicionamento dos envolvidos
O enfermeiro Gerismar Silva Sousa foi procurado por telefone, mas encerrou a ligação e não se manifestou. A médica Paola Morellato Prandi também não respondeu aos contatos. O advogado Renan Salles, representante da associação gestora do hospital, disse ter assinado termo de confidencialidade com a Secretaria de Estado da Saúde e não comentou o caso.
O Hospital Estadual de Urgência e Emergência lamentou o óbito e informou que a investigação segue em curso com a Polícia Civil e demais órgãos competentes. O Conselho Regional de Enfermagem do Espírito Santo instaurou processo administrativo para apurar o caso, mantendo o registro do enfermeiro ativo. O Conselho Regional de Medicina abriu sindicância, e o Ministério Público do Espírito Santo aguarda a conclusão do inquérito policial para avaliar medidas cabíveis.



