Áudios extraídos pela Polícia Federal do celular do empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada revelam que ele acreditava que a investigação sobre a fraude milionária contra o Banco Votorantim poderia chegar ao FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. A investigação da Polícia Federal apura uma fraude de mais de R$ 35 milhões contra o Banco Votorantim, em agosto de 2024. Segundo a PF, parte do dinheiro foi convertida em criptomoedas e passou pela empresa Victory Trading, ligada ao empresário.
O áudio que revela o temor do FBI
A gravação, feita em 20 de agosto de 2024, oito dias após o desvio milionário do banco, mostra Shimada afirmando a um interlocutor que autoridades já rastreavam operações em criptomoedas realizadas por meio de carteiras digitais e que a apuração havia ultrapassado as fronteiras brasileiras. "É, mano. Esse papo vai dar FBI, mano. Você entendeu? Não é brincadeira. Os caras estão investigando pesado", diz Victor em um dos trechos do áudio.
Contexto das sanções dos EUA
Na quarta-feira (1º), Shimada foi incluído na lista de sanções do governo dos Estados Unidos por atuar como um "elo-chave" em uma rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Ele é acusado de lavar mais de 30 milhões de dólares (o equivalente a R$ 156 milhões) para a facção criminosa. Além do caso bancário, Shimada é réu em São Paulo como operador financeiro no escândalo de lavagem de dinheiro envolvendo o contrato de patrocínio entre a VaideBet e o Corinthians.
Rastreamento de carteiras digitais
Na conversa, Victor afirma ter sido avisado por um interlocutor identificado como Rafael de que autoridades já conheciam a operação e monitoravam o caminho percorrido pelos recursos enviados ao exterior. "Os caras já tá sabendo de tudo, aí está rastreando todas as wallets. O que eu soltei pra fora, Colômbia, Estados Unidos, vai voltar tudo", afirma. Em seguida, ele relaciona o monitoramento ao uso da corretora mexicana de criptomoedas Bitso e às operações realizadas em dólares nos Estados Unidos. "A Bitso é mexicana. (...) Como eu faço pagamento nos Estados Unidos, troco de USDC. Irmão, o negócio é federal lá com os caras."
Desespero e fuga para a Colômbia
Em outro trecho, o empresário demonstra preocupação por as operações estarem vinculadas diretamente ao seu nome, e não ao de "laranjas". "E outra, foi no meu nome isso, mano. Por isso que eu tô desesperado", disse. Na mesma conversa, gravada enquanto estava na Colômbia, ele afirma que deixou o Brasil para tentar resolver problemas relacionados às contas e às ordens financeiras bloqueadas. "Eu já saí e deixei minha família, meus filhos lá. Porque eu falei, mano, eu não vou esperar. Eu vou me antecipar." Victor também diz que pretendia viajar ao México para tratar diretamente com representantes da Bitso e tentar destravar operações financeiras que haviam sido bloqueadas.
Bloqueio da conta pela Bitso
O relatório da PF também reúne outro áudio, gravado em setembro de 2024, no qual Shimada conversa com uma funcionária da Bitso. Na ligação, a atendente afirma que a conta permanecia bloqueada em razão de uma investigação e que a empresa aguardava ordem judicial para decidir sobre eventual desbloqueio. Ela orienta ainda que Victor preservasse documentos e evidências caso a sua empresa, a Victory Trading, fosse intimada a prestar esclarecimentos às autoridades. Segundo a Polícia Federal, a análise dos celulares mostra que Shimada operava regularmente com grandes quantias em criptomoedas, especialmente USDT, utilizando a plataforma da Bitso para essas movimentações financeiras.
O que diz a investigação
O relatório foi elaborado em janeiro de 2025, após a extração de dados dos aparelhos apreendidos durante buscas na residência de Victor Shimada. Segundo a PF, o objetivo era identificar diálogos e documentos que ajudassem a confirmar a fraude investigada e identificar outros envolvidos. Nas conclusões, os investigadores afirmam que as conversas analisadas permitem inferir, "com alto grau de precisão", que os áudios tratam da fraude contra o Banco Votorantim, embora ressaltem que as diligências não foram exaustivas. Em nota, o BV (antigo Banco Votorantim) informou que, "em agosto de 2024, identificou movimentações irregulares no âmbito de seus serviços de Banking as a Service (BaaS). O banco adotou imediatamente as medidas cabíveis, comunicando os fatos às autoridades competentes e colaborando ativamente com as investigações que culminaram com a condenação de um dos sancionados pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos conforme lista divulgada hoje. Vale destacar que, na colaboração com as autoridades competentes, o BV atuou como assistente de acusação na ação penal”.



