Menstruação ainda prejudica educação de milhões de brasileiras
Menstruação prejudica educação de milhões de brasileiras

Menstruar ainda atrapalha a educação de milhões de brasileiras. A constatação pode parecer surpreendente em um país que, nos últimos anos, finalmente passou a discutir a pobreza menstrual de forma mais aberta e a criar políticas públicas voltadas ao tema. Mas é exatamente isso que mostram os dados divulgados na semana passada pelo Instituto Alana e pelo Instituto Equidade.info.

Quase quatro em cada dez alunas faltam à escola

Quase quatro em cada dez alunas brasileiras faltam à escola ao menos uma vez por mês por causa da menstruação. Em muitos casos, as ausências decorrem de dores incapacitantes. Em outros, da falta de condições adequadas para lidar com o ciclo menstrual. Em todos eles, o resultado é o mesmo: prejuízo ao aprendizado e à permanência escolar.

Atraso no reconhecimento do problema

O Brasil demorou a reconhecer a dimensão desse problema. Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro vetou parcialmente o programa que previa a distribuição gratuita de absorventes para estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua e presidiárias. O Congresso derrubou o veto, mas a regulamentação da política federal só veio em 2023. Houve avanços desde então. O tema deixou de ser tabu em parte da sociedade e passou a integrar a agenda de saúde pública. O que os números divulgados agora revelam, contudo, é que esses avanços ainda estão longe de produzir os resultados necessários.

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Falhas na execução da política pública

Talvez o dado mais revelador nem seja o das faltas mensais. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 mostram que 15,3% das adolescentes deixaram de frequentar a escola ao menos uma vez por falta de absorventes ou outros itens para cuidados menstruais. Nas escolas públicas, o índice chega a 16,9%. O mais perturbador, porém, é outra informação: mais de 80% dessas adolescentes estudavam em escolas que afirmavam oferecer absorventes. A conclusão é inevitável. O problema não está apenas na existência da política pública, mas na sua capacidade de chegar efetivamente a quem precisa.

Se o produto existe, mas a estudante não consegue acessá-lo, há uma falha de execução. Se a adolescente desconhece a oferta, há uma falha de comunicação. Se sente vergonha de procurar ajuda, há uma falha de acolhimento. Se a distribuição é irregular, há uma falha de gestão. Em qualquer dessas hipóteses, o resultado é o mesmo: uma política criada para garantir dignidade e permanência escolar não cumpre integralmente sua função.

Pobreza menstrual vai além dos absorventes

A nova pesquisa também ajuda a desfazer outra simplificação recorrente. A pobreza menstrual não se resume à falta de absorventes. As cólicas aparecem como principal causa das faltas escolares. O levantamento mostra ainda que mais de um terço das meninas brasileiras começa a menstruar por volta dos 10 anos de idade. Trata-se de uma realidade que exige informação precoce.

O caminho a seguir

O Brasil acertou ao abandonar o obscurantismo que tratava a pobreza menstrual como assunto menor ou constrangedor. Mas reconhecer um problema é apenas o primeiro passo para solucioná-lo. Quando milhões de meninas continuam perdendo aulas por causa da menstruação, não se está diante de uma questão privada ou de um desconforto individual.

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