Jovem que não se promove nas redes preocupa pais, mas terapeuta vê normalidade
Jovem que não se promove nas redes preocupa pais

Jovem que não se promove nas redes preocupa pais, mas terapeuta vê normalidade

Um rapaz de dezessete anos entrou no consultório acompanhado pelos pais. A terapeuta pediu que todos se sentassem e perguntou qual era o problema. O pai respondeu que o filho era inapto para a vida moderna, e a mãe confirmou, dizendo que estavam desesperados.

A terapeuta questionou em que sentido ele era inapto. O pai explicou que o jovem não sabe se promover. Ele não consegue falar de si mesmo, não posta conquistas, não fotografa comida, não anuncia leituras nem viagens. O pai mencionou que, na semana anterior, ele ganhou uma medalha de melhor jogador de basquete na escola, mas não contou para ninguém. Nem uma foto foi publicada.

A terapeuta anotou algo e sugeriu que talvez ele fosse tímido. A mãe disse que era pior: ele elogia os outros. E, pior ainda, elogia sem ironia. A terapeuta largou a caneta e disse entender. O pai continuou: um dia, um colega publicou um texto péssimo na internet, e o filho comentou apenas parabéns por terminar o texto. Nada de bullying ou humilhação pública.

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Perguntada sobre o sonho do rapaz, a mãe respondeu que ele queria ser professor de literatura. A terapeuta ficou em silêncio. A mãe enxugou uma lágrima e contou que compraram um curso de marca pessoal, contrataram um coach e abriram perfil em seis redes sociais, mas ele só usa a internet para conversar com amigos reais.

A terapeuta se virou para o rapaz e fez algumas perguntas. Ele disse que não sente necessidade de ser admirado nem de viralizar. Quando alguém faz mais sucesso que ele, fica feliz pela pessoa. A terapeuta suspirou e a mãe perguntou se havia tratamento. A terapeuta disse que talvez.

Ela perguntou se ele sentia ressentimento por alguém, e ele respondeu que não. Os pais murcharam. Então ela perguntou se ele odiava algo. Ele disse que odiava sim: três pessoas reunidas numa sala para discutir porque ele é diferente das outras três reunidas ali. A terapeuta sorriu e disse que era excelente e perfeitamente normal.

Os pais questionaram se ele teria futuro. A terapeuta respondeu que não fazia ideia, pois gente normal raramente tem futuro garantido; quem costuma se dar bem são os lunáticos. Ela abriu a agenda e pediu que acertassem a consulta. O valor era três mil reais, incluindo uma foto dela com uma frase inspiradora para postarem nas redes.

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