Evasão ou inflar Ideb? Especialistas analisam alta nas aprovações
Evasão ou inflar Ideb? Alta nas aprovações analisada

O Ministério da Educação (MEC) divulgou dados que mostram um aumento significativo na taxa de aprovação escolar no Brasil, passando de 91,7% em 2024 para 94,8% em 2025. O avanço ocorre em meio à adoção, por estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, do sistema de "progressão parcial", que permite que alunos avancem de série mesmo sendo reprovados em até seis disciplinas. A medida gerou debate entre especialistas, que se dividem entre vê-la como uma estratégia legítima para reduzir a evasão escolar ou como uma manobra para inflar artificialmente o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em ano eleitoral.

O que é a progressão parcial e onde está sendo aplicada

A progressão parcial, também conhecida como "avanço continuado", permite que o estudante curse disciplinas pendentes enquanto progride para a série seguinte. No Rio de Janeiro, a Secretaria Estadual de Educação implementou a medida para alunos do ensino médio que reprovam em até três disciplinas. Já no Rio Grande do Norte, o limite é de até seis disciplinas. Segundo o MEC, a taxa de aprovação nacional saltou 3,1 pontos percentuais em um ano, o que representa o maior aumento registrado na série histórica.

Especialistas apontam riscos de manipulação do Ideb

Para a educadora Maria Cristina de Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP), o aumento repentino levanta suspeitas. "A progressão parcial pode ser uma ferramenta pedagógica válida, mas o salto de 3 pontos em um ano sugere que há pressão para melhorar os indicadores antes das eleições municipais de 2026. O Ideb é calculado com base na aprovação e no desempenho em provas, e inflar a aprovação melhora o índice sem necessariamente refletir aprendizado", afirmou.

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Já o professor Carlos Alberto Gomes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defende que a medida pode reduzir a evasão. "Muitos alunos abandonam a escola por repetirem de ano. A progressão parcial mantém o vínculo e oferece recuperação paralela. Dados do Censo Escolar mostram que a evasão no ensino médio caiu de 7,2% para 5,9% entre 2024 e 2025", destacou.

Impactos no aprendizado e no futuro dos alunos

O Conselho Nacional de Educação (CNE) alerta que a progressão parcial deve ser acompanhada de reforço escolar efetivo. "Sem suporte, o aluno acumula defasagens e chega ao final do ensino médio sem domínio do conteúdo. É preciso garantir que a aprovação não seja apenas um número", disse a conselheira Ana Paula Santos. O MEC informou que monitora a implementação e que os estados devem apresentar planos de recuperação.

Dados estaduais e o contexto eleitoral

Os maiores aumentos na aprovação ocorreram em estados que adotaram a progressão parcial. No Rio de Janeiro, a taxa subiu de 89,2% para 93,5%; no Rio Grande do Norte, de 90,1% para 95,2%. Em contraste, estados que não adotaram a medida, como São Paulo, tiveram variação de apenas 0,5 ponto percentual. O especialista em políticas públicas João Mendes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirma que "a coincidência com o calendário eleitoral levanta questionamentos sobre o uso político do Ideb".

Próximos passos e transparência

O MEC anunciou que realizará uma auditoria nos dados de aprovação de 2025 e que pretende discutir critérios nacionais para a progressão parcial. Enquanto isso, o debate entre evasão e manipulação do Ideb continua. Para a professora Maria Cristina, "a educação não pode ser refém de indicadores. O foco deve ser a qualidade do ensino, não a estatística".

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