Em abril, o governo brasileiro bloqueou 27 plataformas de mercados de predição, incluindo as americanas Kalshi e Polymarket, para evitar a consolidação de um modelo de apostas sem controle e que não segue a legislação do país. Apesar da proibição, usuários brasileiros encontram lacunas para acessar esses conteúdos, utilizando VPNs e criptomoedas como forma de pagamento. A DW identificou quatro plataformas operando irregularmente no país, além de anúncios no Instagram de casas de apostas clandestinas.
Como funcionam os mercados de predição
Os mercados de predição operam como uma "bolsa de apostas" sobre eventos futuros. As pessoas compram e vendem contratos baseados em perguntas simples como "Vai acontecer ou não?", relacionados a guerras, mudanças climáticas ou eleições. Se o evento ocorrer, quem apostou ganha dinheiro; caso contrário, perde. Diferentemente das bets tradicionais, onde a empresa define as regras e paga os prêmios, nos mercados preditivos os próprios usuários negociam entre si, e os contratos são tratados como derivativos.
Popularidade e riscos nas eleições americanas e na Copa
Os mercados de predição ganharam enorme tração nas eleições americanas de 2024, após uma disputa jurídica permitir ao Kalshi ofertar palpites sobre os vencedores. Desde então, movimentam bilhões de dólares, mas acumulam restrições e polêmicas. Altos volumes apostados associados a ações dos EUA no Irã e na Venezuela reforçaram temores de que agentes com informações privilegiadas lucraram. Na Copa do Mundo, plataformas oferecem desde apostas convencionais até mercados personalizados, como se Neymar entraria em campo ou se Cristiano Ronaldo choraria em público. A Bernstein previu movimentação de 10 bilhões de dólares em apostas ligadas à Copa.
Diferenças entre bets e predições
Entusiastas dos mercados de predição argumentam que são mais próximos do mercado financeiro do que de uma bet. O lucro da plataforma vem de comissões sobre negociações, independentemente do resultado. No caso do campeão da Copa, apenas o Kalshi movimentou cerca de 850 milhões de dólares. Já nas bets tradicionais, a casa calcula odds para garantir lucro, normalmente de 5%. Apesar das diferenças, estudos mostram que a maioria dos usuários tem perdas. Uma pesquisa sobre o Polymarket revelou que 1% dos usuários detém 76,5% dos lucros. Charles Martineau, professor da Universidade de Toronto, afirmou: "É muito difícil de ganhar dinheiro apostando em esportes... para a pessoa comum, apostar muitas vezes resultará em prejuízo." Ele acrescentou: "Em plataformas como Kalshi e Polymarket, os preços são tão eficientes que é praticamente impossível lucrar." Martineau alertou ainda que "a introdução dos mercados de previsão levará algumas pessoas a desenvolver uma crescente dependência de jogos de azar".
Necessidade de regulamentação
Para a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), a oferta dessas plataformas demandaria licenças específicas, como ocorre com as bets regulares. Na ausência de regulamentação, o acesso deve ser barrado. Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL, elogiou a decisão do governo: "Estava havendo ofertas inclusive de mercados ilegais, como eleições. O governo agiu rápido em excelente momento." Leonardo Henrique Roscoe Bessa, do Betlaw, vê a resposta como "rápida" para limitar apostas em eleições, mas projeta que a regulamentação deve voltar à tona. Ele aponta que o uso de informações privilegiadas é uma dificuldade regulatória adicional: "Quem tem informações, sai na frente."



