O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a concessionária Acciona realizam nesta quinta-feira, 2, o evento oficial de inauguração da Linha 6-Laranja do Metrô. As seis primeiras estações do novo ramal abrem ao público nesta sexta, 3.
Histórico de atrasos e início da operação
O ramal que vai conectar a Brasilândia, na zona norte, à estação São Joaquim, no centro, foi anunciado em 2008 com promessa de entrega em 2012. No entanto, o contrato só foi assinado em 2013, com prazo para conclusão até 2020. Após seis anos de atraso e troca da concessionária, o primeiro trecho, de Perdizes, na zona oeste, à estação João Paulo I, na norte, começa a funcionar.
O trajeto completo com 15 estações só sai em outubro de 2027. A operação inicial será com seis paradas em formato de teste, com horário reduzido e velocidade menor. O trecho estará aberto de segunda a sexta-feira, das 10h às 15h. A linha ficará fechada aos fins de semana e em feriados. Nesta primeira etapa, somente o acesso principal de cada estação estará aberto.
Durante o período de testes, o transporte será gratuito para quem circular apenas pela Linha 6 — justamente por essa estar funcionando parcialmente.
Balsação e conexões
Na estação Água Branca, será possível fazer baldeação com a Linha 7-Rubi do trem — mas a conexão será paga durante a fase de testes. O passageiro terá de sair da estação de metrô e passar pelas catracas do trem, quando serão cobrados R$ 5,40. Isso ocorrerá apenas na operação parcial. Quando começar a operação plena, a baldeação será gratuita. Haverá a cobrança para embarque na Linha 6-Laranja e, dessa forma, não será necessário pagar para fazer a transferência.
Segundo o governo, levará cerca de 19 minutos para ir da João Paulo I à estação Perdizes, viagem que dura aproximadamente 1h de ônibus.
Próximas etapas e cronograma
Em outubro, a malha ganha mais duas estações: Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado, na zona norte. A única que faltará na região é a Maristela, adiada para o próximo ano devido a dificuldades na escavação. Também ficou para o próximo ano o trecho entre Perdizes e São Joaquim. O prazo para a conclusão do traçado é até outubro de 2027. A Estação 14-Bis-Saracura, porém, pode ficar para depois desse prazo, segundo o governo. Isso ocorre após atrasos motivados por descobertas arqueológicas de um antigo quilombo na região da Bela Vista, na região central.
Além da 7-Rubi, será possível acessar as linhas 1-Azul (São Joaquim), 4-Amarela (Higienópolis-Mackenzie) e 8-Diamante (Água Branca) quando o novo metrô estiver completo. No futuro, também está prevista a baldeação com o Trem Intercidades São Paulo-Campinas.
Características e impacto
O itinerário com 15 paradas conecta faculdades como PUC, Faap, Mackenzie, Unip, FMU, Uninove e Centro Universitário São Camilo. O fato lhe rendeu o apelido de “linha das universidades”. A promessa é de que o percurso completo de 15 km dure 23 minutos e transporte mais de 630 mil passageiros por dia. Hoje, quem encara a rota de ônibus chega a perder 1h30 no trânsito.
A inauguração em julho antecipa em quatro meses o prazo máximo para conclusão do trecho da Brasilândia até Perdizes. Pelo contrato, as oito paradas precisavam começar a funcionar somente em outubro, mas o governo e a concessionária Acciona negociaram o adiantamento de seis delas. A data de abertura coincide com o limite para políticos participarem de inaugurações de obras públicas. A restrição da lei eleitoral vale a partir deste sábado, 4 — três meses antes do 1.º turno, em outubro, quando o governador vai disputar a reeleição.
Desafios financeiros e técnicos
Em 2012, a obra era estimada em R$ 2,2 bilhões. Durante quase duas décadas até começar a rodar, a Linha 6-Laranja viu seu cronograma mudar sucessivas vezes, em meio a problemas de paralisações, verba, troca de concessionária e crateras. Em 2008, a promessa era ter o percurso pronto até 2012, como noticiou o Estadão. O orçamento para a construção era de R$ 2,2 bilhões — equivale a R$ 6,1 bilhões, se corrigida pela inflação (IPCA).
Mas o contrato só foi assinado em 2013, na gestão Geraldo Alckmin (hoje PSB). Foi a primeira parceria público-privada (PPP) integral de metrô. Ou seja, a concessionária é responsável pela obra e depois por operar a linha. O consórcio vencedor era formado por várias empresas, entre elas a Odebrecht e Queiroz Galvão. O valor superava o do anúncio: R$ 9,6 bilhões (ou R$ 19,5 bilhões em 2026), divididos entre Estado e iniciativa privada. O preço já considera os 19 anos de operação do modal.
No calendário à época, o primeiro trecho, entre a Brasilândia e a Água Branca, era previsto para 2018 e a conclusão, para 2020. A ideia da PPP integral era de que a concessionária teria interesse em acelerar as obras para logo gerar receita com a operação. Mas deu errado. “Foi a época em que o País viveu o escândalo da (Operação) Lava Jato, que assolou quase todas as empresas que tinham contratos com o poder público. Como consequência, o consórcio enfrentou muitas dificuldades para financiamento, para investimentos e contratar seguros”, diz a diretora da Agência de Transporte do Estado (Artesp), Fernanda Esbízaro Rodrigues Rudnik.
As máquinas pararam em setembro de 2016. Procuradas, Odebrecht e Queiroz Galvão não quiseram se manifestar. Na época, o consórcio afirmou que a suspensão se devia a fatores “alheios à concessionária, como a deterioração da economia e mudanças nas exigências do BNDES”. A equipe de Alckmin, hoje vice-presidente da República, afirmou à reportagem que concluiu em 2016 as desapropriações necessárias e disse que o atraso decorreu das dificuldades de financiamento do consórcio.
Em 2017, o consórcio começou a tentar vender a concessão e, em 2019, na gestão João Doria (então no PSDB), a empresa espanhola Acciona fechou o negócio. “Foi uma das primeiras trocas de concessionárias na história do País”, diz a diretora da Artesp. Liderado pela Acciona, o consórcio Linha Uni assinou o contrato por R$ 15 bilhões e retomou os trabalhos em outubro daquele ano. Segundo a Artesp, o primeiro consórcio havia feito só 10,5% do previsto no cronograma inicial.
Problemas geológicos e custo final
O novo prazo contratual para finalização era outubro de 2025, mas houve desafios geológicos. Dessa vez, na Higienópolis-Mackenzie. “Apesar de vários ensaios de engenharia e geologia feitos anteriormente (à concessão), quando as equipes de escavação chegaram lá, verificou-se que o solo não era o previsto nos ensaios técnicos”, disse o CEO da Acciona no Brasil, André De Angelo, ao Estadão. “O solo apresentava pouca resistência e muita água.” Para túneis, o ideal é um ambiente seco. Quanto mais úmido ou maior for a pressão da água, maiores a instabilidade e o risco de desmoronamento. “A velocidade de escavação teve de ser reduzida e foi preciso fazer injeções de concreto para reforçar as paredes.”
O imprevisto adiaria a inauguração em mais de mil dias, empurrando a data para 2028. O governo, porém, decidiu mudar o formato de escavação, agilizando o processo. A medida permite a liberação das oito estações entre Brasilândia e Perdizes até outubro de 2026. Já as sete restantes, da PUC a São Joaquim (e a Maristela, na zona norte, também adiada por dificuldade no solo), para outubro de 2027.
A mudança na tecnologia de escavação custou R$ 3,6 bilhões extras. Mas sem a medida, segundo a Artesp, o desembolso com o imprevisto teria sido de R$ 4,4 bilhões. O preço total do projeto ficou em R$ 19 bilhões, o que reflete, segundo a Artesp, “a atualização dos valores contratuais, a incorporação de ajustes técnicos e operacionais, além de impactos decorrentes de eventos inesperados”. Para concluir a tempo, a Linha Uni estendeu os trabalhos nos canteiros até a madrugada.
Expansão futura
O plano original da Linha 6-Laranja, desenhado pelo Metrô, prevê que o ramal chegue no futuro à Rodovia dos Bandeirantes, na zona noroeste, e à Cidade Líder, na zona leste. Em 2025, a Acciona obteve a licença ambiental para a expansão da 6-Laranja com mais seis estações. A zona norte ganharia mais duas unidades, Velha Campinas e Morro Grande, no distrito de Pirituba. Já na outra extremidade, o itinerário avançaria rumo à zona leste com mais quatro, chegando à zona leste: Aclimação, na Liberdade, Vila Monumento e Cambuci, no distrito de mesmo nome, e São Carlos, na divisa entre Ipiranga e Mooca.
A ampliação está em fase de estudos, e não há prazo nem valor para o plano sair do papel. O caixa, contudo, começa a ser preparado. Em dezembro, o governador Tarcísio de Freitas sancionou uma lei que autoriza a contratação de até € 313 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão) em financiamento para a implantação e expansão do ramal. Os 7 km adicionais trariam cerca de 210 mil passageiros por dia, segundo projeção de 2013 do Metrô. A extensão também prevê conexão com a Linha 10-Turquesa, da CPTM, na São Carlos, e com a 16-Violeta, na São Carlos e Aclimação — o edital do ramal, no entanto, ainda não foi publicado.
As possíveis desapropriações ainda não foram divulgadas. Mas um estudo de 2024 da Prefeitura prevê a remoção de 189 imóveis, dos quais 119 são residências. O plano original da 6-Laranja, desenhado pelo Metrô antes da licitação da concessão, prevê que o ramal chegue no futuro à Rodovia dos Bandeirantes, próximo ao Jaraguá, na zona noroeste, e à Cidade Líder, na zona leste. A projeção na época era que o desenho completo atendesse 1,15 milhão de pessoas por dia.



