23% dos brasileiros já tiveram encontro por app de relacionamento
23% dos brasileiros já tiveram encontro por app de relacionamento

Cerca de 23% dos brasileiros com smartphone já se encontraram pessoalmente com alguém que conheceram em um aplicativo de relacionamento. A informação é de uma pesquisa da Mobile Time e Opinion Box realizada no ano passado.

Histórias reais de amor digital

A empreendedora Erica Gonçalves Freire, hoje com 33 anos, instalou seu primeiro aplicativo de namoro aos 23. Por não gostar de festas e baladas, viu na tecnologia uma oportunidade para conhecer pessoas. "Não gosto de festa, balada e lugares com bebida. Instalei o aplicativo por incentivo da minha irmã e vi nele uma oportunidade de conhecer pessoas sem sair de casa", conta.

No entanto, a experiência inicial não foi positiva. Ela usava o app por algumas semanas, desinstalava e ficava meses sem usar. "Eu cheguei a conversar com alguns rapazes, mas conhecer pessoalmente foram poucos", relata.

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Em 2021, cinco anos após o primeiro contato, Freire decidiu tentar novamente. "Eu pensei: já que eu estou buscando um relacionamento sério pode ser que tenha algum homem com esse mesmo pensamento. E decidi tentar de novo", diz. A persistência deu resultado: após trocar match e conversar por semanas com um rapaz que morava a 150 km de distância, ele a visitou. No mesmo dia começaram a namorar, três meses depois estavam morando juntos e no mesmo ano se casaram. A união já dura cinco anos.

Brasil lidera uso de apps de relacionamento

Não há números oficiais de quantos brasileiros estão cadastrados em aplicativos de relacionamento, pois as empresas mantêm esses dados em sigilo. No entanto, a pesquisa da Mobile Time e Opinion Box mostrou que 23% dos brasileiros com smartphone já tiveram um encontro com alguém conhecido por meio desses apps.

Entre os jovens de 16 a 29 anos, o percentual chega a 29%. Na faixa de 30 a 49 anos, é de 25%, e entre os com 50 anos ou mais, apenas 14%. Os aplicativos mais populares no Brasil são Tinder, Bumble e Happn.

Segundo o Happn, o Brasil lidera o ranking de usuários, com mais de 33 milhões de cadastrados, de um total global de 180 milhões. "O Brasil é o nosso maior público no mundo todo. A receptividade da plataforma no mercado brasileiro continua sendo excelente e em rápido crescimento: apenas nos últimos três anos, registramos um aumento de 10 milhões de usuários no país", comenta Karima Ben Abdelmalek, CEO e presidente do Happn. Já Bumble e Tinder afirmaram que o Brasil é um de seus mercados mais estratégicos e ativos, mas não compartilham números de usuários.

Mudanças sociais impulsionam o uso

O interesse por aplicativos de relacionamento acompanha transformações sociais. A vida acelerada, jornadas extensas de trabalho, mudanças nos modelos familiares e a digitalização das relações criaram um ambiente favorável para essas plataformas.

A lógica dos apps é simples: perfis, fotografias, descrições curtas e algoritmos que sugerem combinações. Hoje, uma pessoa pode conversar simultaneamente com dezenas de desconhecidos e marcar encontros sem qualquer conexão prévia.

Foi o que aconteceu com a empreendedora brasileira Raellyn Ritter Vilela, de 30 anos, que mora na Ásia desde julho de 2025. Há cerca de sete meses, conheceu o namorado Oleksandr, um ucraniano que vive na Inglaterra, por meio de um aplicativo. "Usei o aplicativo pela primeira vez em julho, quando me mudei do Brasil. Por estar vivendo viajando por países da Ásia achei que era uma maneira de conhecer novas pessoas. Conheci muita gente legal e tive alguns encontros até que em novembro dei match e marquei um encontro com o Oleksandr, que estava a passeio na Tailândia", conta.

Após o primeiro encontro, Vilela seguiu viagem, mas eles continuaram trocando mensagens e fazendo chamadas de vídeo. Cinco meses depois, marcaram um novo encontro na Espanha, onde passaram doze dias de férias. "Começamos a namorar e depois de alguns meses fiquei 20 dias na casa dele na Inglaterra. Ele já tinha planos de se mudar para a Tailândia e percebemos que havia uma possibilidade concreta de vivermos juntos. Em dezembro vamos para o Brasil para conhecer minha família e no próximo ano vamos morar juntos", relata.

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O outro lado: cansaço e frustração

Apesar das histórias de sucesso, muitos usuários relatam exaustão emocional. Uma pesquisa da Forbes Health de 2025 revela que 78% dos usuários já se sentiram emocionalmente esgotados com essas plataformas, indicando uma busca por relações mais autênticas.

Entre os principais fatores de cansaço estão: dificuldade de estabelecer conexão real (40%), decepção com outras pessoas (35%), rejeição (27%), conversas repetitivas (24%), hábito de deslizar perfis (22%), tempo gasto nos apps (21%), pressão para manter uma imagem idealizada (20%) e esforço para gerenciar múltiplos perfis (18%). As mulheres são as mais afetadas: 80% relataram esgotamento, contra 74% dos homens.

"O problema não é só a superficialidade da escolha em si, mas também o que esse modelo faz com o comportamento depois. Quando você tem acesso ilimitado a perfis novos, qualquer coisa que dê errado numa conversa vira motivo para desistir. Não tem por que investir quando a próxima opção está a um swipe de distância. Isso criou uma geração de pessoas que sabem iniciar contato muito bem e se comprometer muito mal", explica Êdella Nicoletti, psicóloga e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT).

O excesso de opções cria uma sensação paradoxal: em vez de facilitar escolhas, a abundância de perfis pode tornar as decisões mais difíceis e aumentar a insatisfação. "Temos a questão do ‘burnout afetivo', que está relacionado às pessoas terem de lidar com situações que disparem sofrimento constantemente, como os ghosting, respostas de assédio, términos de relacionamentos, ter de ficar atualizando constantemente o perfil no app, excesso de mensagens, dentre outras. E também da saciação, quando algo recompensador é oferecido tantas vezes que ele perde efeito", acrescenta Vinícius Dornelles, psicólogo e especialista em DBT.

Outra preocupação é a autenticidade: fotografias antigas, informações imprecisas e perfis falsos são frequentes. Além disso, a necessidade de "agradar" ao máximo de perfis possíveis para receber match afeta a autoestima. "Tem uma dimensão que pouca gente fala: o que esses apps fizeram com a autoestima. Você coloca sua foto para ser julgada por desconhecidos em massa, espera validação na forma de match, e quando ela não vem você internaliza aquilo como rejeição", diz Nicoletti.

O futuro do amor digital

À medida que os usuários se cansam e reduzem o uso, as empresas tentam responder com novas ferramentas, como perfis mais detalhados e recursos para relacionamentos de longo prazo. Ao mesmo tempo, cresce o desejo de equilibrar experiências online e offline: festas, eventos temáticos, grupos de interesse e atividades presenciais voltam a ganhar espaço como alternativas ou complementos.

Ainda assim, segundo os especialistas, dificilmente os aplicativos deixarão de desempenhar um papel importante na vida afetiva dos brasileiros. Assim como gerações anteriores tinham histórias de amor iniciadas em bailes ou praças, a geração atual coleciona relatos que começam com uma notificação na tela do celular. "O que as pessoas parecem estar buscando, cada vez mais, é o que os próprios aplicativos prometeram: conexão genuína, autenticidade e a experiência de ser visto para além de uma fotografia. Tais aspectos reforçam ainda mais a necessidade de uma educação na interação com as ferramentas digitais", conclui Dornelles.