A série 'Brasil 70: A Saga do Tri', disponível na Netflix, busca aproximar o torcedor da Seleção Brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 2026. Com bastante drama, a produção recria o cenário brasileiro da época, mas nem tudo é perfeito.
Uma vitória por goleada, mas com exageros
Após assistir aos cinco capítulos, fica a impressão de que a vitória foi por 7 a 1, tamanho o acerto em diversos aspectos. No entanto, há um grande vacilo: o exagero em histórias paralelas à campanha esportiva. O casal que vende o carro para ver os jogos in loco, a briga exagerada entre cronistas brasileiros e uruguaios na semifinal, e Pelé indo à igreja escondido no porta-malas de um carro são exemplos de espuma melodramática que podem agradar alguns, mas destoam do tom documental.
O acerto em abordar a ditadura
O principal mérito da série é não ignorar a influência da ditadura militar na campanha de 1970. O Brasil vivia o auge da repressão, e os generais capitalizavam cada vitória. A produção faz bem em não deixar isso de lado, consolidando essa opção ao transformar João Saldanha, o 'João Sem Medo', em protagonista. Ele foi o técnico que classificou o time e depois comentarista, e sua personalidade comunista e irreverente é bem capturada por Rodrigo Santoro, que foca em suas tiradas inesquecíveis e contundência ideológica.
Elenco afiado e atuações convincentes
A escolha dos atores é outro grande acerto. Lucas Agrícola convence como Pelé, Daniel Blanco captura a fúria de Rivelino, e Ravel Andrade interpreta com elegância sutil Tostão. A minissérie, criada por Naná Xavier e Rafael Dornellas, também expõe o drama da família do goleiro Félix, interpretado por Hugo Haddad, que viveu o medo de ser transformado em vilão, como aconteceu com Barbosa em 1950.
Marcelo Adnet surpreende como narrador
Marcelo Adnet, conhecido pelo humor, convence como narrador da campanha do tri ao deixar de lado sua entonação humorística. Essa transformação surpreende e convence, mostrando que o ator pode ir além da piada escrachada. Já Rodrigo Santoro, como Saldanha, não exagera no sotaque e foca na força do personagem.
Entre deslizes e acertos, a série ganha de 7 a 1
Apesar do pequeno deslize do dramalhão, a minissérie termina deixando o espectador com vontade de ouvir Cartola: 'A sorrir, eu pretendo levar a vida… pois chorando, eu vi a mocidade perdida…' Esse talvez seja seu principal mérito: despertar emoção e reflexão sobre um momento marcante da história do Brasil.



