Fé, sustentabilidade e tecnologia: tapetes de Corpus Christi em Feira de Santana
Tapetes de Corpus Christi: fé, sustentabilidade e tecnologia

O sol ainda não havia despontado no horizonte, mas a Avenida Senhor dos Passos, em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, já fervilhava com voluntários carregando sacos de serragem, baldes de tinta e moldes produzidos com auxílio de Inteligência Artificial. Horas depois, esses materiais dariam forma aos tradicionais tapetes de Corpus Christi, uma celebração que ocorre há mais de seis décadas e transforma as principais vias da cidade em uma grande obra coletiva de fé.

Uma tradição que atravessa gerações

Na Igreja Católica, Corpus Christi celebra o sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, representados simbolicamente pelo pão e pelo vinho. Uma das tradições mais emblemáticas da data é a confecção dos tapetes coloridos que recebem a procissão. A prática teve origem em Portugal e chegou ao Brasil durante o período colonial. Para os católicos, os tapetes simbolizam a acolhida a Jesus em Jerusalém, quando a população cobriu as ruas com mantos e ramos para a passagem do Messias.

Fé, sustentabilidade e tecnologia

Se antigamente os tapetes utilizavam frequentemente alimentos e outros materiais de consumo, hoje o cenário é bem diferente. Borra de café, raspas de pneus, tampinhas plásticas, retalhos de tecido, diferentes tipos de serragem e até cartões de crédito estão entre os materiais mais empregados pelos grupos responsáveis pela decoração das avenidas.

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Mário Leal, integrante do movimento "Momento de Vida", acompanha a tradição há mais de quatro décadas e testemunhou essa transformação ao longo dos anos. "Antigamente, usávamos muito mais alimentos. Hoje, há uma preocupação maior com a sustentabilidade. A borra de café, por exemplo, é muito utilizada, assim como outros materiais reaproveitados", explicou.

Segundo ele, o trabalho começa muito antes da madrugada de Corpus Christi. Os materiais precisam ser recolhidos, preparados e organizados para que tudo esteja pronto no dia da celebração. "O pessoal utiliza tecido, folhas, pó de serra, pó de pneu, garrafas PET, borra de café. Você vê a criatividade de cada grupo. Antes de tudo isso, ainda tem o trabalho de pintar os materiais e deixar secar", contou. Mário lembra que, além das técnicas tradicionais, a tecnologia também passou a fazer parte do processo. Neste ano, diversos grupos utilizaram moldes produzidos com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para facilitar a criação dos desenhos.

Trabalho começa semanas antes

A coordenadora do grupo "Caminhada Catedral De Sant’Ana", Celiane Ferreira, afirma que a preparação não se resume ao dia da procissão. Segundo ela, o planejamento começa logo nos primeiros meses do ano e se intensifica nas semanas que antecedem a celebração. "Quando vira o ano, a gente já coloca Corpus Christi na agenda. É uma data especial para nós. Depois, começamos a organizar os materiais, pintar o pó de serra, preparar o sal e providenciar tudo que será utilizado", disse.

O processo exige paciência. O pó de serra precisa ser tingido e colocado para secar. O mesmo acontece com o sal colorido, que demanda alguns dias de preparação antes de ser aplicado nos desenhos. A criatividade também aparece nos detalhes. "Tem algumas coisinhas que a gente reutiliza e fazem muita diferença. Cartões de crédito que as pessoas não usam mais servem para fazer os contornos dos desenhos. Muita gente guarda durante o ano para trazer nessa época", explicou. Para Celiane, o maior desafio não é a montagem dos tapetes, mas a expectativa de que tudo saia conforme o planejado. "A gente fica ansioso para que dê certo porque é para Jesus. Queremos sempre fazer o melhor."

Tradição que atravessa gerações

Ao longo da manhã, pessoas de todas as idades trabalharam lado a lado na avenida. A psicóloga Samila Costa participou pela primeira vez da confecção dos tapetes e levou a filha, Mel, de 6 anos, para acompanhar a celebração. Convertida ao catolicismo após ter sido evangélica por anos, ela descreveu a experiência como um momento marcante de sua caminhada de fé. "Participar da construção do tapete para que o Santíssimo Sacramento possa passar pelas ruas e nos lembrar que Ele é o centro das nossas vidas é a maior emoção da minha vida", afirmou.

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A presença da filha ao seu lado também teve um significado especial. Mesmo diante das dificuldades de sair cedo de casa, Samila decidiu manter a promessa feita à menina. "Eu poderia vir sem ela, mas tinha feito um combinado. E o combinado era importante para ela. Eu sei que é importante para mim e era importante para ela com Cristo também", disse. Para a psicóloga, envolver Mel na celebração é uma forma de transmitir a fé e garantir que a tradição continue viva nas próximas gerações. "Enquanto o Senhor me der vida, eu preciso devolver a Ele tudo o que tenho. E passar isso adiante. Quero que ela cresça vivendo isso também", afirmou.

No grupo Caminhada, um dos mais tradicionais da Catedral Metropolitana, a participação dos jovens é considerada fundamental para garantir a continuidade da celebração. O coordenador do movimento, Ítalo Dias, de 32 anos, afirmou que o grupo reúne cerca de 455 integrantes e mobilizou dezenas deles logo nas primeiras horas da manhã. A rotina começou ainda durante a madrugada. "A gente acorda por volta de 2h40 para estar aqui antes das 4h da manhã. Mesmo com chuva, o que fortalece a gente é a fé", afirmou. Segundo ele, participar da confecção dos tapetes representa mais do que um serviço voluntário. "Isso nos fortalece cada vez mais. É revigorador. É como renovar as forças para continuar a caminhada durante todo o ano."

Enquanto os mais experientes orientam os trabalhos, crianças observam, ajudam e aprendem os significados da celebração. É nesse encontro entre diferentes gerações que a tradição encontra forças para seguir adiante. Mais do que desenhos espalhados pela avenida, os tapetes de Corpus Christi representam uma herança coletiva construída ano após ano. Uma tradição que preserva a fé, incorpora novos hábitos sustentáveis e continua sendo transmitida de pais para filhos em Feira de Santana.