Em 3 de abril de 1973, o engenheiro americano Martin Cooper percorria a Sexta Avenida em Nova York. Com um caderninho de endereços no bolso, ele fez uma ligação histórica. O destinatário era seu maior rival, Joel Engel, do Bell Labs da Nokia. A provocação foi direta: "Estou ligando de um telefone celular. Mas de um telefone celular de verdade, de mão, portátil, pessoal".
As consequências dessa ligação transformaram o mundo. O "tijolo", como os colegas chamavam o aparelho de 25 centímetros e 1,1 quilo, ocupa um lugar de honra no teatro da inovação. Esse espírito inovador é um dos pilares que elevaram os Estados Unidos à condição de maior superpotência da história.
250 anos de independência e o debate sobre a hegemonia
Com a proximidade do bicentenário e meio da declaração da independência, cresce o debate sobre o Estado, a sobrevivência e a persistência da hegemonia americana. As críticas não são novidade; fazem parte do sistema de contestação que mantém viva a chama do pensamento livre, componente orgânico do projeto dos gênios do século XVIII.
Enquanto a população celebra o 4 de Julho com fogos e bandeiras, comentaristas e intelectuais fazem duras críticas. A viagem de Donald Trump à China foi retratada como um fracasso humilhante, sem resultados concretos. Há exagero, alimentado tanto pelo espírito de autoflagelação da era woke quanto por resultados realmente fracos.
Vantagens incomparáveis dos EUA
Independentemente das ações do presidente, que tem mais dois anos e oito meses de mandato, os EUA continuam a desfrutar de vantagens únicas. A geografia privilegiada, com dois oceanos e recursos naturais abundantes, é apenas o começo. A economia de 32 trilhões de dólares, o dólar como moeda de troca internacional, o poderio militar incomparável e a influência cultural global são fatores que sustentam a posição americana.
Essa influência permite que um jovem de um bairro pobre brasileiro cante um rap e o divulgue mundialmente graças ao supercomputador que todos têm ao alcance das mãos – mais uma inovação americana.
Inovação: do celular à inteligência artificial
Voltamos ao celular, agora na forma de smartphone. Ele integra uma lista de invenções americanas que incluem o telefone, a lâmpada elétrica, o transistor, a internet, o computador pessoal, o caixa eletrônico, o laser e o videogame. Todos os impérios têm ciclos de expansão e declínio. Com os EUA, o mesmo ocorrerá, embora de maneiras imprevisíveis, especialmente com a inteligência artificial podendo definir guinadas inimagináveis.
A China dará o xeque-mate final? Os EUA recuarão da posição de hiperpotência? Em discurso histórico, Xi Jinping disse a Trump: "A China e os EUA deveriam ser parceiros, em lugar de rivais, ajudando um ao outro a ter sucesso e prosperar juntos". Será possível? Ou Xi já tramou tudo para ganhar a batalha da inovação e, um dia, ligar para o presidente americano para anunciar a vitória, como fez Martin Cooper com o concorrente da Nokia?
O legado de Martin Cooper
Aos 97 anos, Cooper testemunhou todas as inovações da era high-tech que ajudou a desencadear. Sua fortuna é estimada em 600 milhões de dólares. Além de provocar a concorrência, ganhar dinheiro é o motor da inovação. Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996.



