A biblioteca de Stalin: como os livros moldaram o ditador soviético
Biblioteca de Stalin: livros que moldaram o ditador

Na infância e na juventude, era a Bíblia. Depois, com a conversão ao socialismo, vieram as teorias marxistas que culminaram nos escritos de seu ídolo maior, Lênin. Entre um volume e outro, ele nunca deixou de apreciar clássicos da literatura mundial, como Shakespeare, Cervantes e Victor Hugo, sem falar nos cânones russos, casos de Gogol e Dostoiévski. Por trás de um dos ditadores mais sanguinários do século XX havia um leitor contumaz, que valorizava o saber contido em cada virar de página. E é essa faceta oculta do governante soviético que se descortina em A Biblioteca de Stalin (Matrix Editora), do historiador britânico Geoffrey Roberts, membro da Academia Real irlandesa, que acaba de ser lançado no Brasil.

O ditador intelectual

Josef Stalin nasceu Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, em 1878, na Geórgia, que passaria a integrar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e, após suceder a Lênin no comando do partido bolchevique, ficaria à frente do país por três décadas, até sua morte, em 1953. Foi entronizado por seus seguidores como o homem que estruturou e consolidou o regime socialista em um vasto território entre a Europa e a Ásia e o líder que deteve Hitler e a ameaça nazista. Mas também é lembrado como o responsável pela era do Grande Terror, entre 1936 e 1938, que resultou no fuzilamento e na prisão de centenas de milhares de pessoas, incluindo líderes do Partido Comunista, oficiais do Exército, intelectuais e minorias étnicas.

“Se você não entender Stalin como o intelectual que foi, jamais compreenderá a natureza do sistema autoritário que ele criou, o qual perdurou quatro décadas após sua morte e, em alguns aspectos, persiste na Rússia atual”, disse Roberts a VEJA. Aí é que está: a exemplo de Lênin, seu mestre na teoria e na prática, Stalin buscou ser um homem de ação, porém, nunca abriu mão dos livros. E a prova disso está na biblioteca que ele construiu. Um acervo de cerca de 25.000 títulos que, com a morte do ditador, acabou disperso. Roberts teve acesso justamente aos remanescentes dessa coleção pessoal. “É, de longe, a fonte mais íntima do mundo interior do ditador”, afirma.

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O acervo pessoal de Stalin

O historiador embrenhou-se nesse universo particular formado por milhões de páginas — muitas delas com anotações de próprio punho do dirigente — e costura seus achados aos episódios mais conhecidos da biografia de Stalin. “Sua vida como leitor não deixa dúvidas de que era um intelectual sério, com convicções profundas e apego emocional às ideias, o que também lhe permitiu presidir um regime que matou milhões de inocentes em nome da busca por uma utopia”, analisa Roberts.

Essa devoção pelo saber, enviesada por suas preferências ideológicas, é claro, revela, assim, uma diferença marcante entre Stalin e outras lideranças atrozes, como Hitler. O único paralelo que Roberts enxerga nesse sentido seria o chinês Mao Tsé-tung, outro admirador de Lênin. De fato, Stalin é cria e fomentador de uma cultura de reverência aos livros que se enraizou no povo soviético. Inclusive, o autocrata estimulava uma sociedade produtora e consumidora de conhecimento, um plano que, para funcionar sob rígido controle, descambaria em movimentos como o realismo soviético — uma escola estética e literária guiada pelos ditames do stalinismo — e a censura de autores e obras.

O leitor que moldou o regime

Em A Biblioteca de Stalin, conhecemos como tudo começou e acabou sob esse novo prisma. O georgiano foi um “bom menino”, dedicado aos estudos e leitor da Bíblia, nas aulas do seminário que formava padres, e que depois se engajou no movimento bolchevique, fazendo de Lênin seu modelo e de história sua disciplina favorita — como comprovam os títulos da coleção examinada por Roberts. Os livros o acompanharam nessa trajetória até chegar ao poder. A filha Svetlana recorda que, na casa da família, não havia espaço nas paredes para quadros — elas eram tomadas por prateleiras. Seu pai lia, rabiscava e elaborava seus próprios escritos, tendo a literatura como forma de lazer e instrução. Chamava atenção, como observou Ernst Fischer, um historiador da arte austríaco que o conhecia, pelo seu dom de ser “um mestre da argumentação simplificada”.

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Nada disso ofusca suas tomadas de decisão, muitas delas monstruosas — como as deportações para a Sibéria e as ondas de fome na Ucrânia decorrentes de seu plano econômico para salvar a URSS. É por isso que Roberts não acredita na romantização do personagem ao destacar seu lado intelectual. “Desde que mantenhamos uma visão equilibrada e baseada em evidências, não há risco moral em buscarmos uma compreensão maior de Stalin”, afirma o historiador. De fato, sua busca incessante pelo êxito socialista, calcada em ações práticas, mas também em reflexões derivadas de suas inúmeras leituras, forjou a URSS que conhecemos e seu legado de opressão. “Caso tivesse sido mais um intelectual do que um bolchevique”, especula Roberts na obra, talvez tivesse optado por “ações mais moderadas com um custo menor para a humanidade”. Os livros de história, no entanto, mostram como a fé inabalável no partido e na dominação comunista acabou terminando.