Documento confidencial do BRB expõe transação milionária em dia de feriado bancário
Um relatório interno do Banco Regional de Brasília (BRB), obtido pelo g1, revela detalhes alarmantes sobre uma transação financeira realizada durante o feriado de Carnaval de 2025 envolvendo o Banco Master e a empresa Tirreno. O documento, concluído em 19 de maio de 2025 por um grupo de trabalho especial criado para analisar as operações com o Banco Master, aponta para irregularidades graves em uma movimentação de centenas de milhões de reais.
Operação em dia não útil levanta suspeitas de irregularidade
Segundo o parecer técnico, o Banco Master afirmou ter adquirido uma carteira de créditos da Tirreno no valor de R$ 143,6 milhões exatamente no dia 4 de março de 2025, uma terça-feira de Carnaval, quando não há expediente bancário no país. "Essa operação, realizada em um dia não útil, suscita dúvidas quanto à regularidade do trâmite e à observância dos procedimentos operacionais usuais", destaca um trecho do documento.
O relatório continua alertando que "o que pode demandar esclarecimentos adicionais ou documentação complementar para validação da legitimidade do processo". A escolha da data já seria, por si só, um indicativo de práticas fora dos padrões regulatórios do sistema financeiro brasileiro.
Revenda com ágio milionário ao BRB no dia seguinte
No dia 5 de março, Quarta-Feira de Cinzas, o Banco Master revendeu a mesma carteira de créditos ao BRB por R$ 251,2 milhões, representando um ágio de R$ 107,3 milhões sobre o valor declarado de aquisição. O documento interno revela que, na data da operação com o banco estatal, a carteira estava avaliada pelo Master em apenas R$ 143,8 milhões.
Em depoimento, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, afirmou que não pagou nenhum real pelos títulos da Tirreno, mas mesmo assim conseguiu revendê-los ao BRB com lucro milionário. A investigação aponta que os créditos da Tirreno "não existiam, na prática", configurando uma operação fictícia.
Descoberta tardia da origem dos créditos
O BRB só descobriu que boa parte das carteiras de crédito adquiridas do Master não tinham como fonte o banco de Vorcaro, mas sim a Tirreno, durante uma visita técnica realizada nos dias 29 e 30 de abril de 2025. Em reuniões virtuais anteriores e em outra visita técnica, o Master mencionava que parte dos contratos vinha de uma "Associação", sem nunca identificar formalmente a instituição.
A identificação como Tirreno só ocorreu na visita presencial, através do superintendente executivo de Tesouraria, Alberto Felix. Documentos internos do banco estatal mostram que, enquanto a compra do Master pelo BRB era avaliada pelo Banco Central, a equipe do banco de Vorcaro deixou de responder a cobranças formais e não esclareceu pendências relacionadas às carteiras de crédito adquiridas.
Contexto mais amplo da investigação
As investigações apontam que o BRB comprou aproximadamente R$ 12 bilhões em carteiras de crédito podres que não pertenciam ao Master e não tinham garantias financeiras adequadas. A suspeita é que o Banco Master não possuía fundos suficientes para honrar os títulos que emitiu, com vencimento em 2025, e então adquiriu créditos - sem realizar qualquer pagamento - da Tirreno para, em seguida, revendê-los ao BRB.
Ao longo de 2025, o BRB tentou comprar 58% das ações do Banco Master por R$ 2 bilhões, mas a operação foi barrada pelo Banco Central, que liquidou o banco na mesma data em que prendeu Daniel Vorcaro. O caso continua sob investigação das autoridades regulatórias e judiciais, com potencial para revelar mais irregularidades no sistema financeiro brasileiro.



